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PEREGRINA DA SOLIDÃO – No romance Ana-Não, Augustin Gomez-Arcos retrata o calvário de uma velha viúva republicana pelas terras da Espanha franquista. outubro 25, 2018

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Sozinha no mundo (o marido e dois filhos foram mortos na guerra civil, e o caçula cumpre pena de prisão perpétua numa prisão da Espanha franquista), Ana Paúcha, aos 75 anos, ouve o chamado da morte: “Ana Paúcha, acorda. Deixa a tua casa antes que ressurja o sol. A lua está morta. Ninguém te verá partir. Nem animal. Nem estrela. Não deve haver testemunhas do que tens a fazer. Era isso mesmo que desejavas quando adormecestes, há pouco, na tua cadeira: partir sem deixar vestígios. É chegado o momento. Deves empreender a viagem com dignidade e sem medo. Com esperança de que não serei tão mesquinha contigo quanto a Vida”.

Solitária há 30 anos, convivendo com a lembrança dolorosa da família que a guerra destroçou, e uma única imagem apaziguadora, o nome poético do barco do marido pescador, Anita, a alegria da volta (agora, uma embarcação abandonada, como a própria anciã), a velha pega a estrada para cruzar, a pé, a Espanha, da Andaluzia ao País Basco, ainda fraturada pela luta fratricida, três décadas depois. Leva apenas a roupa do corpo e “um pão de amêndoas, untado de azeite, com gosto de anis e bastante açúcar, um bolo, diria ela”, preparado para o filho, Jesus, que almeja encontrar depois da longa marcha. (mais…)

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PERMANÊNCIA setembro 24, 2018

Posted by eliesercesar in Poesia.
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Quero a riqueza da nuvem,
que faz um desenho ao léu,
e, logo, passa
para o outro lado do céu.

CONRAD setembro 12, 2018

Posted by eliesercesar in Poesia.
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Vou ao bar, peço uma dose de gim
(devo confessar que estou frágil?),
e penso que devemos suportar o naufrágio,
com aquela nobreza atormentada de Lord Jim.

ESCRITOR, O GUARDIÃO DA MEMÓRIA julho 25, 2018

Posted by eliesercesar in Prosa.
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Ernesto Sábado, puxando a memória.

Creio que, dentre todas as artes, a literatura é aquela que mais depende da memória e também a que mais procura preservar o passado, através da fragilidade duradoura das palavras. Daí ser o escritor, por excelência, o guardião da memória, dos tempos imemoriais e homéricos ao passado mais recente. A memória é a faculdade que não deixa nenhum ato, por mais trivial que possa parecer, caiar no esquecimento, como um cheiro que vem da cozinha da infância, desencadeia no adulto as mais nítidas impressões e o faz empreender o resgate proustiano do tempo perdido.

A memória é capaz de transformar as perdas, por mais insidiosas e dolorosas que sejam (um amor contrariado, a morte de uma pessoa amada, os oito anos da infância querida) numa cintilante canção da permanência, como ocorre (para citar um exemplo) na poesia de Ruy Espinheira Filho. Ela é tudo o que restará de pé e radiante sobre os escombros da longínqua juventude. Por isso, para marcar o Dia do Escritor (25 de julho) me reporto a este trecho memorável do romance “Sobre heróis e tumbas”, do argentino Ernesto Sábato:

“Porque a memória é o que resiste ao tempo e a seus poderes de destruição, e é algo assim como a forma que a eternidade pode assumir nesse incessante trânsito. E ainda que nós (nossa consciência, nossos sentimentos, nossa dura experiência) vamos mudando com os anos, e também nossa pele e nossas rugas vão se convertendo em prova e testemunho desse trânsito, há algo em nós, lá muito dentro, lá em regiões muita escuras, aferrado com unhas e dentes a infância e ao passado, à raça e à terra, à tradição e aos sonhos, que parece resistir a este trágico processo: a memória, a misteriosa memória de nós mesmos, do que somos e do que fomos. Sem a qual (e que terrível há de ser então! se dizia Bruno) esses homens que a perderam como em uma formidável e destrutiva explosão daquelas regiões profundas, são tênues, incertas e levíssimas folhas arrastadas pelo furioso e sem sentido vento do tempo”.

(mais…)

ENCONTRO MARCADO julho 18, 2018

Posted by eliesercesar in Poesia.
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Não importa, se vens para a  guerra ou a paz,

com roupa branca ou armadura medieval.

Para mim, tanto faz,

se marchas para o bem ou para mal.

Não importa a real intenção:

esperarei com uma flor na mão,

CHUVA julho 3, 2018

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Para Suzana Alice, eticaecológica.

Caem as águas da vida,
em nossas mãos.
A todo dia,
a qualquer hora,
caem, aos pouquinhos,
essas águas,
da vida,
em nossas mãos.

O TRONO DO DESENGANADO – FINAL junho 10, 2018

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Aloendra gostava de olhar o homem de boa aparência que parecia não dar mais nenhuma importância ao mundo. Ela não tinha pais. Era criada pela avó, bastante velha para vigiar os seus passos. Podia ficar na praça até as onze da noite, quando a avó começava a chamá-la para espantar os maus espíritos de sua imaginação decrépita. Belisário parecia não notar a companhia da adolescente. Tampouco a beleza dela, ainda não consolidada, chamava-lhe a atenção.

Outubro os alcançou juntos. Carregando sempre a “Revista Geográfica”, Aloendra sentava-se todas as noites com Belisário.

Tina temia que Rosalina aparecesse no “Dia dos Mortos”. Ela acreditava que as pessoas sumidas quando aparecem no “Dia dos Mortos” surgem apenas para anunciar que já não pertencem ao mundo dos vivos. Era com apreensão que a cozinheira via aproximar-se o segundo dia de novembro. Como saber se Belisário resistiria à cruel revelação? — perguntava-se Tina. (mais…)

O TRONO DO DESENGANADO* 2 junho 8, 2018

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“Amar é temer a si nas horas cruas”

Antônio Brasileiro

        

         PARTE II

 

Em junho, um jovem psiquiatra vindo da capital para recuperar-se em casa de parentes de uma estafa, interessou-se por Belisário. Empolgado com o caso do homem, praticamente da idade dele, exilado numa cadeira de balanço, o especialista passou a observar Belisário com atenção cientifica. Tina já havia desamarrado a cadeira da árvore e o patrão podia balançar-se livremente.

Belisário não se incomodou com a observação do psiquiatra. Não ligou para as fotografias que o médico  tirava. Olhava a objetiva (apontada para o seu rosto, como uma arma prestes a disparar), insensível e imóvel como um morto que teimava em manter uma precária ligação com o mundo.

Após alguns dias de observação, o psiquiatra concluiu que poderia comunicar-se com Belisário, se também colocasse uma cadeira de balanço debaixo da mesma árvore e passasse a se balançar da mesma forma que ele. Arranjou a cadeira e, à noite, sentou-se diante de Belisário, imitando os seus gestos; impulsos necessários para fazer a cadeira balançar. (mais…)

O TRONO DO DESENGANADO* 1 junho 7, 2018

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Amar é temer a si nas horas cruas”

Antônio Brasileiro

PARTE I

Quando Rosalina partiu, Belisário colocou a cadeira debaixo da árvore. Tinha pouco mais de trinta anos. Sua expressão era de boi impassível. Sabia que Rosalina voltaria; sabia que os ventos de maio ou as tempestades de areia de agosto a trariam de volta.

Tina, a cozinheira, não compreendeu o motivo que o fez balançar-se na cadeira, diante da eterna paisagem: ruas iguais batidas pela poeira sufocante. Pensou que ele deixaria a cadeira para almoçar. No final da tarde, cansada de esperá-lo à mesa, levou-lhe o almoço.

Belisário permanecia no mesmo lugar, indiferente, inclusive, às grandes moscas que pousavam em seu nariz e espalhavam-se pelo povoado. Petiscou a comida e deixou-a de lado. Um vira-lata comeu todo o resto deixado no prato.

Belisário voltará para dentro de casa na hora de dormir”, pensou Tina.

No começo da manhã, trouxe-lhe o café. Ele bebeu um pouco, despejando o resto no chão.

Padre Feitosa olhou, intrigado, o homem na cadeira. Passava para a missa das seis e parou para cumprimentar Belisário; perguntou-lhe se havia algum problema, mas não obteve resposta. Repetiu a pergunta e Belisário continuou calado. Por fim, temendo chegar atrasado para a missa, o sacerdote retomou o caminho da igreja, frustrado em ver desperdiçada, logo no começo do dia, sua boa vontade profissional. (mais…)

REZA DE SÃO FRANCISCO abril 19, 2018

Posted by eliesercesar in Poesia.
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Cansei dos homens
(carrapichos).
Vou viver com os bichos.