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IMAGEM VIVA DA HISTÓRIA – No romance Não morra antes de morrer, Yevgeny Yevtushenko relata os bastidores do golpe frustrado de 1991, na agonizante União Soviética. fevereiro 13, 2019

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A literatura russo-soviética sempre caminhou de mãos dadas com a história, desde Pushkin. Assim tem sido com Tolstói (Guerra e Paz), Sholokhov (O Don Silencioso), Pasternak (Doutor Jivago), Soljenitsin (Arquipélago Gullag), Ribakov (Os filhos da Rua Arbat), Grossman (Vida e Destino) e tantos outros. É também o caso deste bom romance com o péssimo título de livro de autoajuda, Não morra antes de morrer, de Yevgeny Yevtushenko, que foi um enfant terrible da poesia soviética como se pode ver em sua célebre Autobiografia precoce, em que ele diz que “a obra de um verdadeiro poeta é a imagem viva, palpitante, dinâmica e expressiva do seu tempo”. (mais…)

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CHORO fevereiro 3, 2019

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“Filho, porque choras?
Que pesar carregas na alma?”

(Homero, A Ilíada, Canto I, 362)

Por que choras, meu filho?
Que pesar carregas
que choras tanto,
ao ponto de quase te afogares,
no calmo rio dos teus olhos ?

Por que choras sozinho,
quando, ao redor, o riso se impõe?

Pudesse, chorava contigo.
Mas o rio dos meus olhos secou
e resta apenas um poço fundo,
bem fundo e sem água, meu filho.

MARGENS janeiro 27, 2019

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Como entender os rios,

se as águas não param e passam

antes de qualquer compreensão?

Por isso, fico às margens

que não saem do lugar

e são mais calmas que os rios.

 

FARÓIS janeiro 21, 2019

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I

DA BARRA

Não são dos faraós os melhores faróis.
Os melhores faróis guiam a juventude
pelas águas do momento.

II

DA BARRA

Depois, virão outros faróis.
E a escuridão,
e o esquecimento.

ODISSEIA DOS PEQUENOS – Em A Comédia Humana, William Sorayan cria um microcosmo humanista numa pequena cidade da Califórnia. dezembro 30, 2018

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O título do livro que remete à portentosa obra de Balzac, mas é uma obra-prima da literatura norte-americana: A Comédia Humana, romance de William Saroyan, escritor de descendência armênia, essa gente massacrada na fronteira da história.

A estrutura lembra Winesburg Ohio, o clássico de Sherwood Andersen sobre uma cidadezinha e sua gente, Aliás, a influência é patente. Até porque o livro de Saroyan foi lançado em 1942 e o de Andersen em 1919. A Comédia Humana também se passa numa pequena cidade, desta vez Ithaca, Califórnia, Não é à toa que os dois principais personagens do romance de Saroyan se chamam Ulysses (um menino de quatro anos) e o irmão dele, Homero (um adolescente, de 14). O Odisseu seria o irmão dele, Marcus, que partiu para a guerra, com o desejo de  retornar para casa. (mais…)

YES, NÓS TEMOS CHUMBO – No romance Boquira, Carlos Navarro Filho denuncia a exploração de uma empresa típica de uma republiqueta de bananas dezembro 27, 2018

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Em Boquira, Carlos Navarro Filho faz bom jornalismo com tempero de ficção.

 

O jornalismo literário brasileiro acaba de ganhar uma vigorosa contribuição, mistura do melhor da investigação jornalística (rigor na apuração dos fatos e contundente denúncia social) e do cuidado estético da boa ficção: Boquira, do jornalista baiano Carlos Navarro Filho, por muitos anos chefe da sucursal em Salvador do jornal O Estado de São Paulo, numa época em que os grandes jornais do sul do país, incluindo O Globo, o Jornal do Brasil e, em escala menor, a Folha de S. Paulo, mantinham uma pequena e atuante redação na capital baiana.

Boquira pode ser lido como um livro-reportagem ou um romance de não-ficção na célebre definição de Truman Capote, autor do maior clássico do gênero, o cultuado A sangue frio. O livro conta uma história digna de uma republiqueta de bananas que não produziu frutas para os Estados Unidos e a Europa, à custa do enorme sacrifício das populações (como aconteceu com os países da América Latina explorados pela norte-americana United Fruit Company), mas chumbo, da extração ao beneficiamento do minério. (mais…)

PEREGRINA DA SOLIDÃO – No romance Ana-Não, Augustin Gomez-Arcos retrata o calvário de uma velha viúva republicana pelas terras da Espanha franquista. outubro 25, 2018

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Sozinha no mundo (o marido e dois filhos foram mortos na guerra civil, e o caçula cumpre pena de prisão perpétua numa prisão da Espanha franquista), Ana Paúcha, aos 75 anos, ouve o chamado da morte: “Ana Paúcha, acorda. Deixa a tua casa antes que ressurja o sol. A lua está morta. Ninguém te verá partir. Nem animal. Nem estrela. Não deve haver testemunhas do que tens a fazer. Era isso mesmo que desejavas quando adormecestes, há pouco, na tua cadeira: partir sem deixar vestígios. É chegado o momento. Deves empreender a viagem com dignidade e sem medo. Com esperança de que não serei tão mesquinha contigo quanto a Vida”.

Solitária há 30 anos, convivendo com a lembrança dolorosa da família que a guerra destroçou, e uma única imagem apaziguadora, o nome poético do barco do marido pescador, Anita, a alegria da volta (agora, uma embarcação abandonada, como a própria anciã), a velha pega a estrada para cruzar, a pé, a Espanha, da Andaluzia ao País Basco, ainda fraturada pela luta fratricida, três décadas depois. Leva apenas a roupa do corpo e “um pão de amêndoas, untado de azeite, com gosto de anis e bastante açúcar, um bolo, diria ela”, preparado para o filho, Jesus, que almeja encontrar depois da longa marcha. (mais…)

PERMANÊNCIA setembro 24, 2018

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Quero a riqueza da nuvem,
que faz um desenho ao léu,
e, logo, passa
para o outro lado do céu.

CONRAD setembro 12, 2018

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Vou ao bar, peço uma dose de gim
(devo confessar que estou frágil?),
e penso que devemos suportar o naufrágio,
com aquela nobreza atormentada de Lord Jim.

ESCRITOR, O GUARDIÃO DA MEMÓRIA julho 25, 2018

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Ernesto Sábado, puxando a memória.

Creio que, dentre todas as artes, a literatura é aquela que mais depende da memória e também a que mais procura preservar o passado, através da fragilidade duradoura das palavras. Daí ser o escritor, por excelência, o guardião da memória, dos tempos imemoriais e homéricos ao passado mais recente. A memória é a faculdade que não deixa nenhum ato, por mais trivial que possa parecer, caiar no esquecimento, como um cheiro que vem da cozinha da infância, desencadeia no adulto as mais nítidas impressões e o faz empreender o resgate proustiano do tempo perdido.

A memória é capaz de transformar as perdas, por mais insidiosas e dolorosas que sejam (um amor contrariado, a morte de uma pessoa amada, os oito anos da infância querida) numa cintilante canção da permanência, como ocorre (para citar um exemplo) na poesia de Ruy Espinheira Filho. Ela é tudo o que restará de pé e radiante sobre os escombros da longínqua juventude. Por isso, para marcar o Dia do Escritor (25 de julho) me reporto a este trecho memorável do romance “Sobre heróis e tumbas”, do argentino Ernesto Sábato:

“Porque a memória é o que resiste ao tempo e a seus poderes de destruição, e é algo assim como a forma que a eternidade pode assumir nesse incessante trânsito. E ainda que nós (nossa consciência, nossos sentimentos, nossa dura experiência) vamos mudando com os anos, e também nossa pele e nossas rugas vão se convertendo em prova e testemunho desse trânsito, há algo em nós, lá muito dentro, lá em regiões muita escuras, aferrado com unhas e dentes a infância e ao passado, à raça e à terra, à tradição e aos sonhos, que parece resistir a este trágico processo: a memória, a misteriosa memória de nós mesmos, do que somos e do que fomos. Sem a qual (e que terrível há de ser então! se dizia Bruno) esses homens que a perderam como em uma formidável e destrutiva explosão daquelas regiões profundas, são tênues, incertas e levíssimas folhas arrastadas pelo furioso e sem sentido vento do tempo”.

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