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ESCRITOR, O GUARDIÃO DA MEMÓRIA julho 25, 2018

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Ernesto Sábado, puxando a memória.

Creio que, dentre todas as artes, a literatura é aquela que mais depende da memória e também a que mais procura preservar o passado, através da fragilidade duradoura das palavras. Daí ser o escritor, por excelência, o guardião da memória, dos tempos imemoriais e homéricos ao passado mais recente. A memória é a faculdade que não deixa nenhum ato, por mais trivial que possa parecer, caiar no esquecimento, como um cheiro que vem da cozinha da infância, desencadeia no adulto as mais nítidas impressões e o faz empreender o resgate proustiano do tempo perdido.

A memória é capaz de transformar as perdas, por mais insidiosas e dolorosas que sejam (um amor contrariado, a morte de uma pessoa amada, os oito anos da infância querida) numa cintilante canção da permanência, como ocorre (para citar um exemplo) na poesia de Ruy Espinheira Filho. Ela é tudo o que restará de pé e radiante sobre os escombros da longínqua juventude. Por isso, para marcar o Dia do Escritor (25 de julho) me reporto a este trecho memorável do romance “Sobre heróis e tumbas”, do argentino Ernesto Sábato:

“Porque a memória é o que resiste ao tempo e a seus poderes de destruição, e é algo assim como a forma que a eternidade pode assumir nesse incessante trânsito. E ainda que nós (nossa consciência, nossos sentimentos, nossa dura experiência) vamos mudando com os anos, e também nossa pele e nossas rugas vão se convertendo em prova e testemunho desse trânsito, há algo em nós, lá muito dentro, lá em regiões muita escuras, aferrado com unhas e dentes a infância e ao passado, à raça e à terra, à tradição e aos sonhos, que parece resistir a este trágico processo: a memória, a misteriosa memória de nós mesmos, do que somos e do que fomos. Sem a qual (e que terrível há de ser então! se dizia Bruno) esses homens que a perderam como em uma formidável e destrutiva explosão daquelas regiões profundas, são tênues, incertas e levíssimas folhas arrastadas pelo furioso e sem sentido vento do tempo”.

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O TRONO DO DESENGANADO – FINAL junho 10, 2018

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Aloendra gostava de olhar o homem de boa aparência que parecia não dar mais nenhuma importância ao mundo. Ela não tinha pais. Era criada pela avó, bastante velha para vigiar os seus passos. Podia ficar na praça até as onze da noite, quando a avó começava a chamá-la para espantar os maus espíritos de sua imaginação decrépita. Belisário parecia não notar a companhia da adolescente. Tampouco a beleza dela, ainda não consolidada, chamava-lhe a atenção.

Outubro os alcançou juntos. Carregando sempre a “Revista Geográfica”, Aloendra sentava-se todas as noites com Belisário.

Tina temia que Rosalina aparecesse no “Dia dos Mortos”. Ela acreditava que as pessoas sumidas quando aparecem no “Dia dos Mortos” surgem apenas para anunciar que já não pertencem ao mundo dos vivos. Era com apreensão que a cozinheira via aproximar-se o segundo dia de novembro. Como saber se Belisário resistiria à cruel revelação? — perguntava-se Tina. (mais…)

O TRONO DO DESENGANADO* 2 junho 8, 2018

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“Amar é temer a si nas horas cruas”

Antônio Brasileiro

        

         PARTE II

 

Em junho, um jovem psiquiatra vindo da capital para recuperar-se em casa de parentes de uma estafa, interessou-se por Belisário. Empolgado com o caso do homem, praticamente da idade dele, exilado numa cadeira de balanço, o especialista passou a observar Belisário com atenção cientifica. Tina já havia desamarrado a cadeira da árvore e o patrão podia balançar-se livremente.

Belisário não se incomodou com a observação do psiquiatra. Não ligou para as fotografias que o médico  tirava. Olhava a objetiva (apontada para o seu rosto, como uma arma prestes a disparar), insensível e imóvel como um morto que teimava em manter uma precária ligação com o mundo.

Após alguns dias de observação, o psiquiatra concluiu que poderia comunicar-se com Belisário, se também colocasse uma cadeira de balanço debaixo da mesma árvore e passasse a se balançar da mesma forma que ele. Arranjou a cadeira e, à noite, sentou-se diante de Belisário, imitando os seus gestos; impulsos necessários para fazer a cadeira balançar. (mais…)

O TRONO DO DESENGANADO* 1 junho 7, 2018

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Amar é temer a si nas horas cruas”

Antônio Brasileiro

PARTE I

Quando Rosalina partiu, Belisário colocou a cadeira debaixo da árvore. Tinha pouco mais de trinta anos. Sua expressão era de boi impassível. Sabia que Rosalina voltaria; sabia que os ventos de maio ou as tempestades de areia de agosto a trariam de volta.

Tina, a cozinheira, não compreendeu o motivo que o fez balançar-se na cadeira, diante da eterna paisagem: ruas iguais batidas pela poeira sufocante. Pensou que ele deixaria a cadeira para almoçar. No final da tarde, cansada de esperá-lo à mesa, levou-lhe o almoço.

Belisário permanecia no mesmo lugar, indiferente, inclusive, às grandes moscas que pousavam em seu nariz e espalhavam-se pelo povoado. Petiscou a comida e deixou-a de lado. Um vira-lata comeu todo o resto deixado no prato.

Belisário voltará para dentro de casa na hora de dormir”, pensou Tina.

No começo da manhã, trouxe-lhe o café. Ele bebeu um pouco, despejando o resto no chão.

Padre Feitosa olhou, intrigado, o homem na cadeira. Passava para a missa das seis e parou para cumprimentar Belisário; perguntou-lhe se havia algum problema, mas não obteve resposta. Repetiu a pergunta e Belisário continuou calado. Por fim, temendo chegar atrasado para a missa, o sacerdote retomou o caminho da igreja, frustrado em ver desperdiçada, logo no começo do dia, sua boa vontade profissional. (mais…)

DIATRIBE janeiro 19, 2017

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diatribe

É cachaceiro, é presepeiro, brigão, xingão, e diz isso e diz aquilo e aquilo outro, e é escroto, disse isso e redisse aquilo, e duvida de nossa cunhada, já que nosso irmão devia reparar que o galeguinho não se parece com nenhum de nós, e ainda tripudia dizendo é ferro, é  ferro, é ferro na boneca,é no gogó neném, e outras besteiras, e de Tia Pulula disse que ela é chamada assim porque  pula e  dá salto mortal em rola,  que o senhor, quando jovem, lavava as calçolas da putas no brega onde trabalhou de segurança e dava as suas primeiras fodas, assim mesmo,  dava as suas fodas iniciais (mais…)

JIHAD outubro 21, 2016

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O menino não queria ir à festa. A mãe, outrora foliona extasiada, preferia ficar em casa. O pai não fazia questão de sair, detestava a música barulhenta e requebrativa, com letras bobas e refrões onomatopaicos, mas acabou convencido pelas duas filhas adolescentes, que por nada perderiam o Carnaval, ainda mais que ficariam num camarote para assistir ao desfile dos principais blocos com as melhores atrações da folia. Queriam (e por isso, se rebelaram juntas), ver um jovem cantor sertanejo numa festa de samba e pagode. Os pais cederam e foram à rua, afinal, era melhor ter as meninas vigiadas de perto, longe das investidas dos marmanjos que não respeitavam ninguém; quem tem filha moça sabe como é!

No final da manhã, toda a família já estava no camarote. O menino indiferente à algazarra na pista. As meninas animadas, cochichando entre si sempre que viam um rapaz atraente. O pai, parado e sisudo. A mãe teve uma recaída foliã e dançou como nos tempos de solteira ao som de uma esgoelada cantora de sucesso. O calor era intenso. Os pais bebiam cerveja e os filhos refrigerantes. (mais…)

A GOSTOSA DO MÊS junho 22, 2016

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Gostosa

Saia curta, blusa decotada, sandália plataforma, rosto untado de maquiagem, Sheilinha se aproximou de Estela, que gerenciava os negócios.

– Como é que pode?

– O quê?

– Aquela lambisgoia da Milena ser  a Gostosa do Mês? (mais…)

ÔNIBUS & CIA junho 2, 2016

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Vendedor

Primeiro entraram os dois rapazes. O magro e sarará ficou na dianteira. O mulato atarracado se alojou no meio do veículo. O primeiro falou: Bom dia! Ninguém respondeu. Bom dia! Muitos passageiros responderam ao cumprimento, com a rapidez mecânica das mulheres que lotam os programas de auditório da TV. Outros o fizeram por cortesia forçada ou vergonha de ficar calado. O sarará insistiu. Mais forte, gente educada, quero ouvir mais forte! Vou falar de novo. Booom diiaaa! A resposta veio mais alta. Booom diiaaa! O sarará deu um sorriso de satisfação e anunciou que estavam ali para distrair a  todos, com um pouco de poesia. Pronto! Mais um para estragar a viagem, pensei com os olhos pregados no livro que levava para qualquer lugar que permitisse a mínima tranquilidade necessária à leitura. Sempre julguei tentativa de extorsão a aproximação desses vendedores e pedintes de ônibus dispostos a arrancar qualquer moeda dos passageiros que, se tivessem dinheiro sobrando, não andariam nessas espeluncas itinerantes, quase sempre lotadas e tremelicantes como se os parafusos e as arruelas quisessem se desprender das ferragens. Que o prefeito deixasse o seu carro refrigerado e entrasse numa dessas batedeiras conduzindo o rebanho dócil da cidade, de bairro em bairro, de casa para o trabalho e do trabalho para casa, para a igreja ou ainda para o bar, templo de muitos. Somos artistas de rua, disse o sarará. Ai, meus Deus! Somos poetas…Misericórdia! (mais…)

CLANGOR DE FERROS NA NOITE julho 4, 2015

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Ferros

Logo amanhecerá e um de nós dois não verá a luz do novo dia. Ou, talvez, ambos. Ele está bem próximo, atrás da pilastra, à minha espreita. Quase posso ouvir-lhe a respiração, contida pela ansiedade ou, quem sabe, pelo mesmo medo que se apossa de mim, agora; um medo irreprimível e atávico, misturado à coragem forçada de quem não pode deter o inevitável; ancestral como o primeiro combate travado pelo homem fora da caverna. A qualquer momento, ele deixará o esconderijo, e eu a proteção provisória desta coluna, para o combate sem trégua mediado pela neutra madrugada. Não sei  porque diabos temos que nos matar um ao outro? Que lei intransigente determina que devemos nos matar? Em nome de que regra, em obediência a que código de honra temos que abandonar nossa precária proteção para o duelo de feras que exige o sacrifício de pelo menos um dos lutadores? Pensando bem, não tenho ódio do inimigo e, para ser sincero, sequer o considero inimigo. (mais…)

ENTREVISTA COM RILKE março 25, 2015

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(Um diálogo intertextual com a 1ª e 2ª Elegias de Duíno*)

rainer-maria-rilke1

Como o senhor exprime a angústia existencial de sua poesia?

Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos, me ouviria?

Para senhor, “Todo anjo é terrível”. Como define os anjos?

Pássaros quase mortais da alma.

Sua poesia tem a marca da transitoriedade e da volatilidade da vida. No final, o que fica para o homem?

Resta-nos, quem sabe,

a árvore de alguma colina, que podemos rever

cada dia; resta-nos a rua de ontem,

e o apego cotidiano de algum hábito

que se afeiçoou a nós e permaneceu. (mais…)