jump to navigation

JIHAD outubro 21, 2016

Posted by eliesercesar in Contos.
add a comment

homem-bomba-1

O menino não queria ir à festa. A mãe, outrora foliona extasiada, preferia ficar em casa. O pai não fazia questão de sair, detestava a música barulhenta e requebrativa, com letras bobas e refrões onomatopaicos, mas acabou convencido pelas duas filhas adolescentes, que por nada perderiam o Carnaval, ainda mais que ficariam num camarote para assistir ao desfile dos principais blocos com as melhores atrações da folia. Queriam (e por isso, se rebelaram juntas), ver um jovem cantor sertanejo numa festa de samba e pagode. Os pais cederam e foram à rua, afinal, era melhor ter as meninas vigiadas de perto, longe das investidas dos marmanjos que não respeitavam ninguém; quem tem filha moça sabe como é!

No final da manhã, toda a família já estava no camarote. O menino indiferente à algazarra na pista. As meninas animadas, cochichando entre si sempre que viam um rapaz atraente. O pai, parado e sisudo. A mãe teve uma recaída foliã e dançou como nos tempos de solteira ao som de uma esgoelada cantora de sucesso. O calor era intenso. Os pais bebiam cerveja e os filhos refrigerantes. (mais…)

A GOSTOSA DO MÊS junho 22, 2016

Posted by eliesercesar in Contos.
add a comment

Gostosa

Saia curta, blusa decotada, sandália plataforma, rosto untado de maquiagem, Sheilinha se aproximou de Estela, que gerenciava os negócios.

– Como é que pode?

– O quê?

– Aquela lambisgoia da Milena ser  a Gostosa do Mês? (mais…)

ÔNIBUS & CIA junho 2, 2016

Posted by eliesercesar in Contos.
1 comment so far

Vendedor

Primeiro entraram os dois rapazes. O magro e sarará ficou na dianteira. O mulato atarracado se alojou no meio do veículo. O primeiro falou: Bom dia! Ninguém respondeu. Bom dia! Muitos passageiros responderam ao cumprimento, com a rapidez mecânica das mulheres que lotam os programas de auditório da TV. Outros o fizeram por cortesia forçada ou vergonha de ficar calado. O sarará insistiu. Mais forte, gente educada, quero ouvir mais forte! Vou falar de novo. Booom diiaaa! A resposta veio mais alta. Booom diiaaa! O sarará deu um sorriso de satisfação e anunciou que estavam ali para distrair a  todos, com um pouco de poesia. Pronto! Mais um para estragar a viagem, pensei com os olhos pregados no livro que levava para qualquer lugar que permitisse a mínima tranquilidade necessária à leitura. Sempre julguei tentativa de extorsão a aproximação desses vendedores e pedintes de ônibus dispostos a arrancar qualquer moeda dos passageiros que, se tivessem dinheiro sobrando, não andariam nessas espeluncas itinerantes, quase sempre lotadas e tremelicantes como se os parafusos e as arruelas quisessem se desprender das ferragens. Que o prefeito deixasse o seu carro refrigerado e entrasse numa dessas batedeiras conduzindo o rebanho dócil da cidade, de bairro em bairro, de casa para o trabalho e do trabalho para casa, para a igreja ou ainda para o bar, templo de muitos. Somos artistas de rua, disse o sarará. Ai, meus Deus! Somos poetas…Misericórdia! (mais…)

CLANGOR DE FERROS NA NOITE julho 4, 2015

Posted by eliesercesar in Contos.
3 comments

Ferros

Logo amanhecerá e um de nós dois não verá a luz do novo dia. Ou, talvez, ambos. Ele está bem próximo, atrás da pilastra, à minha espreita. Quase posso ouvir-lhe a respiração, contida pela ansiedade ou, quem sabe, pelo mesmo medo que se apossa de mim, agora; um medo irreprimível e atávico, misturado à coragem forçada de quem não pode deter o inevitável; ancestral como o primeiro combate travado pelo homem fora da caverna. A qualquer momento, ele deixará o esconderijo, e eu a proteção provisória desta coluna, para o combate sem trégua mediado pela neutra madrugada. Não sei  porque diabos temos que nos matar um ao outro? Que lei intransigente determina que devemos nos matar? Em nome de que regra, em obediência a que código de honra temos que abandonar nossa precária proteção para o duelo de feras que exige o sacrifício de pelo menos um dos lutadores? Pensando bem, não tenho ódio do inimigo e, para ser sincero, sequer o considero inimigo. (mais…)

ARRASTA-CRIANÇA dezembro 15, 2014

Posted by eliesercesar in Contos.
1 comment so far

Para Maria Cecília, que duvida desta história.

Arrasta-criança

I

 

Meu pai disse que eu deveria obedecer a ele e a mamãe, que não deveria falar com estranhos, nem me perder de vista quando estivéssemos na rua, para que o Arrasta-criança não me puxasse pelos cabelos e me levasse para o galpão, escuro e abandonado, onde as crianças desobedientes ficam presas para sempre.

Era medonho, o Arrasta-criança, garantia meu pai. Alto, magro, com umas mãos do tamanho de uma raquete de ping pong, umas pernas finas e compridas para correr mais depressa, quando sequestrasse a criança; orelhas de abano; dois orifícios no meio da cara no lugar do nariz e apenas um dente colossal e em forma de triângulo, com o qual, pica-pau medonho, ficava pinicando a cabeça da criança mais próxima.

Antes de raptar qualquer menino ou menina desobediente, o Arrasta-criança mandava a mulher dele averiguar o terreno, a fim de ver o momento mais propício para atacar  a criança mais fácil de ser raptada. Então, Maltrata-criança, sua consorte infernal, se disfarçava de uma boa matrona e circulava pelos grandes magazines, lojas, estações rodoviárias, parques e jardins, e também aeroportos, farejando a melhor vítima. (mais…)

CORDEIRO outubro 17, 2014

Posted by eliesercesar in Contos.
add a comment

                                                                                                     

Cordeiro

  

CORDEIRO

1

Essas cordas me arrebentam. Na quarta-feira estarei com as mãos esfoladas, os dedos inchados pelos socos que dou; os olhos roxos pelos murros que recebo. Já estou acostumado. É sempre assim, pancada que vai pancada que vem. Ninguém liga para o que acontece nas cordas, salvo quando a confusão é com os mauricinhos e com as patricinhas que ficam do lado de dentro. Se eu não ficar atento, apanho de folião pipoca – desses frouxos, do lado de fora, que batem e saem correndo e que só batem quando estão em grupo.

Vocês já perceberam. Sou cordeiro.  Não desses cordeiros amansados pela religião que apanham e dão à outra face à porrada. Faço parte do enorme lumpesinato do carnaval e, muitas vezes, me comprazo em bater em meus semelhantes, os lenhados que se espremem para brincar fora das cordas e sonham com os camarotes. Não me importo com o trabalho. Preciso ganhar alguns trocados e é só. Não há lugar para falso moralismo com o estômago vazio e contas a pagar. (mais…)

A cabeça de Lampião        julho 16, 2014

Posted by eliesercesar in Contos.
add a comment
  1.  

 

Virgulino
Fonça jurava que viu a cabeça de Lampião cair de um avião.

– Vi; vi, sim. Foi no açude – teimava ela, aos oitenta anos, com os cabelos brancos assanhados, os olhos, de tão esbugalhados, parecendo um farol de fusquinha, a boca sem nenhum dente e todo o seu corpinho encurvado.

A velha repetia a mesma história. Há bastante tempo, lavava roupas no açude com um grupo de moças da idade dela. No final da tarde, terminado o serviço, as amigas voltaram para casa com as bacias na cabeça. Ela ficou sozinha enxugando as últimas peças. Nos matos, ao redor, tudo era tranquilidade, com os pássaros procurando um cantinho para dormir, os sapos coaxando à beira d’água e as cigarras cantando sem parar. (mais…)

AVENTURA NO CIRCO março 13, 2014

Posted by eliesercesar in Contos.
add a comment

mágico

Fechei os olhos no instante em que o homem forte, barbudo e cabeludo, vestido apenas numa tanga, atirou o primeiro machado. Temi pela mulher bonita, amarrada a uma grande roda de madeira, onde a arma deveria se cravar. Vavá me cutucou e eu abri os olhos. O machado fincara-se na madeira, a dois palmos da cabeça da moça. (mais…)

CASERNA janeiro 9, 2014

Posted by eliesercesar in Contos.
add a comment

caserna (1)

Agora, lá em casa todos têm que usar farda. Impus o fardamento para fomentar a disciplina doméstica, antes frouxa, com ciscos nos cantos da sala. Para dar o exemplo patriarcal, fui o primeiro a envergar a farda (não digo uniforme, coisa de colegiais). Tiveram que acompanhar a oficial indumentária (essa, sim, palavra imersa em testosterona)  Mariazinha do Fórum, minha patroa, e a prole obediente, Gervásio, Ananias, Gonilda e Elizabete, nomes díspares como a apontar as diferentes idiossincrasias dos meus filhos. (mais…)

UMA HISTÓRIA DA ERA DO JAZZ julho 31, 2013

Posted by eliesercesar in Contos.
add a comment
Ilustração: Nighthaws, de Edward Hooper.

Ilustração: Nighthaws, de Edward Hooper.

(Trecho da novela O escolhido das sombras, do livro A garota do outdoor)

 

20

 

A música amenizava o tédio. Em companhia de Violeta eu passava horas inteiras ouvindo clássicos, jazz tradicional e um pouco de gospel.

Quando ouvia um daqueles negros americanos cantar, com uma voz potente, quase roufenha e bastante nítida, evocava a atmosfera viciada dos cabarés dos anos trinta, que conhecia somente através dos filmes. (mais…)