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ODISSEIA DOS PEQUENOS – Em A Comédia Humana, William Sorayan cria um microcosmo humanista numa pequena cidade da Califórnia. dezembro 30, 2018

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O título do livro que remete à portentosa obra de Balzac, mas é uma obra-prima da literatura norte-americana: A Comédia Humana, romance de William Saroyan, escritor de descendência armênia, essa gente massacrada na fronteira da história.

A estrutura lembra Winesburg Ohio, o clássico de Sherwood Andersen sobre uma cidadezinha e sua gente, Aliás, a influência é patente. Até porque o livro de Saroyan foi lançado em 1942 e o de Andersen em 1919. A Comédia Humana também se passa numa pequena cidade, desta vez Ithaca, Califórnia, Não é à toa que os dois principais personagens do romance de Saroyan se chamam Ulysses (um menino de quatro anos) e o irmão dele, Homero (um adolescente, de 14). O Odisseu seria o irmão dele, Marcus, que partiu para a guerra, com o desejo de  retornar para casa. (mais…)

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YES, NÓS TEMOS CHUMBO – No romance Boquira, Carlos Navarro Filho denuncia a exploração de uma empresa típica de uma republiqueta de bananas dezembro 27, 2018

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Em Boquira, Carlos Navarro Filho faz bom jornalismo com tempero de ficção.

 

O jornalismo literário brasileiro acaba de ganhar uma vigorosa contribuição, mistura do melhor da investigação jornalística (rigor na apuração dos fatos e contundente denúncia social) e do cuidado estético da boa ficção: Boquira, do jornalista baiano Carlos Navarro Filho, por muitos anos chefe da sucursal em Salvador do jornal O Estado de São Paulo, numa época em que os grandes jornais do sul do país, incluindo O Globo, o Jornal do Brasil e, em escala menor, a Folha de S. Paulo, mantinham uma pequena e atuante redação na capital baiana.

Boquira pode ser lido como um livro-reportagem ou um romance de não-ficção na célebre definição de Truman Capote, autor do maior clássico do gênero, o cultuado A sangue frio. O livro conta uma história digna de uma republiqueta de bananas que não produziu frutas para os Estados Unidos e a Europa, à custa do enorme sacrifício das populações (como aconteceu com os países da América Latina explorados pela norte-americana United Fruit Company), mas chumbo, da extração ao beneficiamento do minério. (mais…)

PEREGRINA DA SOLIDÃO – No romance Ana-Não, Augustin Gomez-Arcos retrata o calvário de uma velha viúva republicana pelas terras da Espanha franquista. outubro 25, 2018

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Sozinha no mundo (o marido e dois filhos foram mortos na guerra civil, e o caçula cumpre pena de prisão perpétua numa prisão da Espanha franquista), Ana Paúcha, aos 75 anos, ouve o chamado da morte: “Ana Paúcha, acorda. Deixa a tua casa antes que ressurja o sol. A lua está morta. Ninguém te verá partir. Nem animal. Nem estrela. Não deve haver testemunhas do que tens a fazer. Era isso mesmo que desejavas quando adormecestes, há pouco, na tua cadeira: partir sem deixar vestígios. É chegado o momento. Deves empreender a viagem com dignidade e sem medo. Com esperança de que não serei tão mesquinha contigo quanto a Vida”.

Solitária há 30 anos, convivendo com a lembrança dolorosa da família que a guerra destroçou, e uma única imagem apaziguadora, o nome poético do barco do marido pescador, Anita, a alegria da volta (agora, uma embarcação abandonada, como a própria anciã), a velha pega a estrada para cruzar, a pé, a Espanha, da Andaluzia ao País Basco, ainda fraturada pela luta fratricida, três décadas depois. Leva apenas a roupa do corpo e “um pão de amêndoas, untado de azeite, com gosto de anis e bastante açúcar, um bolo, diria ela”, preparado para o filho, Jesus, que almeja encontrar depois da longa marcha. (mais…)

AUTO-DE-FÉ DE PERPLEXIDADE julho 4, 2017

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Vaca

Em Vaca de Nariz Sutil, o mineiro Campos de Carvalho faz a expiação de um neurótico de guerra.

Há quem compare o escritor mineiro Campos de Carvalho (1916-1998) há Edgar Allan Poe, pelo aspecto sombrio da obra, e a Henry Miller, pela iconoclastia  sem peias. Creio que a comparação mais próxima seria com o francês Louis-Ferdinand Celine, o Celine de Viagem ao fim da noite, pelo niilismo visceral, o desnudamento cru da condição humana e um certo existencialismo misantropo, contidos, por exemplo, em Vaca de nariz sutil.

Neste livro de 1961, o personagem destila sua neurose de guerra, sua antipatia pelos semelhantes, sua cicatriz cruel de sobrevivente dilacerado, seus traumas e recalques, com o mesmo prazer mórbido com que os iconoclastas destruíam as imagens sagradas. Nas memórias e reflexões que chama, acertadamente, de “auto-de-fé de perplexidade” – a perplexidade sem trérgua da condição humana – o narrador sem nome não poupa nem a si mesmo, ou, principalmente, a si mesmo:  “Um monstro Eu, ou quem me fez? ”. Enfim, um anti-herói, um outsider que carrega “o diploma de esquizofrênico no bolso junto com uma medalha de ouro”. (mais…)

ÉDIPO CAATINGUEIRO – Em O homem da lupara amarela, Alfredo Gonçalves de Lima Neto se inspira em Sófocles para criar uma tragédia no sertão. abril 1, 2017

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Lupara

Em companhia de um amigo, um rapaz viaja para Crato, no sertão do Ceará, para conhecer a festa do padre Cícero Romão Batista, o Padim Ciço dos devotos nordestinos. Lá, ouve de uma cigana a terrível profecia: “Estás fadado a deitares com tua mãe e também a matares o teu pai! ”. Até então de boa índole, o jovem se assusta. Volta para casa, mas não consegue esquecer a previsão da mulher. Teria o vaticínio a mesma força, inelutável e cega, que rege o destino fechado dos heróis caídos da tragédia grega?

A resposta está no romance O homem da lupara amarela do escritor Alfredo Gonçalves de Lima Neto, médico nascido em Salvador e radicado em Valença, no baixo sul da Bahia., que transplanta para o sertão baiano o cerne da desdita de Édipo Rei, a mais conhecida tragédia de Sófocles (496 ou 494 a.C – 406 a.C). (mais…)

ALMAS MORTAS – Em As Feras, o argentino Roberto Artl, dente outas histórias, faz a radiografia de um escritor fracassado. janeiro 28, 2017

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Poucas histórias desnudaram tão cruamente o egocentrismo mesquinho da criação e os embustes da crítica literárias como o conto O escritor fracassado, um dos oito relatos de As Feras, do escritor argentino Roberto Arlt. É história de um jovem e promissor escritor, incensado pela crítica, admirado e invejado por seus pares, que publica um livro de sucesso, que, depois da estreia bem-sucedida, sucumbe à mais absoluta esterilidade, sendo, doravante, incapaz de escrever uma linha que preste.

A angústia da criação bloqueada leva o rapaz à autocomplacência de acreditar que está passando por um período passageiro, ao final do qual brotarão as grandes obras gestadas na aflição e no sofrimento. Ele chega a encontrar um álibi para a sua inatividade: já não escreve  com a facilidade de  antes porque o seu grau de exigência aumentara:

Se eu não produzia como certos escrevinhadores alcunhados de coelhos ou moços de recados da literatura, era porque estava ficando exigente. Isso mesmo. E a exigência bem entendida começa em casa. Nada de produzir a rodo sem quê nem porquê.; nada de sem derramar, nem de trabalhar dia e noite e noite e dia, nem de infestar os jornais com a assinatura. Isso não era digno de um escritor que se preze.

– Amigos – perorava enfático, – Amigos, temos que ser um pouco exigentes, conservar o pudor da assinatura. (mais…)

BARTEBLY À BRASILEIRA – Em O Amanuense Belmiro, Cyro dos Anjos cria um burocrata lírico. janeiro 15, 2017

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belmiro

Saudado pelo crítico Antônio Cândido como uma obra-prima, “pela impressão de acabamento de segurança, de equilíbrio, de realização quase perfeita que revela o artista profundamente consciente das técnicas e dos meios de seu ofício e possuidor de uma visão pessoal das coisas, lentamente, cristalizada no decorrer de longos anos de estudo”, O Amanuense Belmiro, romance escrito em 1937 pelo mineiro Cyro dos Anjos, completa, agora, em 2017, oitenta anos. Passadas oito décadas, o livro “de um burocrata lírico”, como definiu o mesmo Antônio Cândido, continua com um viço de uma obra que acaba de sair do prelo para permanecer nas prateleiras de qualquer estante que resista ao tempo e às releituras mais exigentes.

Tímido, celibatário e introspectivo, Belmiro Borca regula pelos 40 anos sem nunca ter feito nada de especial ou de marcante na vida. Vive a mesma rotina cartorial e doméstica; do cartório para casa, sempre, ao lado de duas irmãs velhas, uma das quais sofrendo das faculdades mentais, com interregnos sociais restritos a poucos amigos e a conversas regadas a chope, em doses moderadas, como convém a um homem excessivamente moderado.

Belmiro Borga é um primo distante de Bartebly, o escriturário abúlico e robotizado de Herman Melville. (mais…)

VIVA O POVO BRASILEIRO! dezembro 22, 2016

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– Em Histórias da Gente Brasileira, Mary Del Priore coloca a massa anônima no palco das grandes transformações do país.

Em geral os livros de história relatam os grandes acontecimentos, guerras, conquistas, descobertas, invenções e outros fenômenos protagonizados por grandes homens e mulheres: generais, imperadores, rainhas, princesas, grandes navegadores, cientistas, artistas, líderes políticos e religiosos etc. O povo só aparece como coadjuvante para compor números e o pano de fundo dos fatos cruciais que transformaram as sociedades ao longo dos séculos. Em seu novo livro, Histórias da Gente Brasileira (São Paulo: Leya, 2016) a historiadora Mary Del Priore rompe com esta lógica perversa e coloca a massa anônima no proscênio da História como fio condutor de seus relatos, o primeiro volume sobre a vida no Brasil colonial.

A obra será uma tetralogia que passará pelo Império, a Era Vargas e terminará no Brasil moderno. Já no prefácio, a historiadora avisa que, no livro, o leitor “há de conhecer uma história do Brasil diferente; não aquela dos grandes feitos, nomes e datas que marcaram o nosso passado; tampouco aquela dos fenômenos extraordinários que provocaram rupturas na nação, mas as histórias do dia a dia, ou melhor, de todos os dias da semana”. São, como ressalta Mary Del Priore, “histórias feitas por personagens anônimos do passado, que raramente nos sãos apresentados, pois se confundem com o tecido social em construção; uma história da gente brasileira no labor cotidiano, inventando, produzindo e ganhando o pão de cada dia. Sim, no gerúndio mesmo, pois a vida real se passa nesta forma de verbo”. (mais…)

A CLASSE OPERÁRIA NÃO VAI AO PARAÍSO – Em No Chão da Fábrica, Roniwalter Jatobá é o cronista da exploração do proletariado. dezembro 17, 2016

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“Tudo miúdo, até a vida”.

(Do conto Pano Vermelho)

 

Ao que me consta, foi Amando Fontes com Os Corumbas, romance de 1933 sobre o calvário e a desagregação de uma família sergipana na cidade grande pré-industrializada, que introduziu a fábrica (e, por extensão, o proletariado) na literatura brasileira. Quase meio século depois, o mineiro Roniwalter Jatobá amplia o tema apenas sugerido por Amando Fontes e faz da exploração do operário – o migrante nordestino que fugiu da seca e da miséria para viver na periferia de São Paulo – o leitmotiv de sua obra, sobretudo deste No Chão da Fábrica, (São Paulo: Nova Alexandria, 2016), que acaba de sair do pátio da indústria de personagens miúdos, derrotados e desencantados em que se transformou a ficção desse autor que deixou o interior da Bahia, onde foi chofer de caminhão,  para ser também operário na maior metrópole do Brasil.

No Chão da Fábrica é a reunião de três livros anteriores de Jatobá: Sabor de Química, de 1976; Crônicas da Vida Operária (1978) e a novela, visceral e dolorosa, Tiziu (1994). Em comum com as três a utilização do peão de fábrica como personagem coletivo de uma tragédia brasileira: a impiedosa exploração do trabalhador iludido com as promessas jamais cumpridas do “milagre brasileiro”, a maior peça de marketing político da ditadura militar instalada no país em 1964. De milagre mesmo para os deserdados da sorte, os humilhados e ofendidos de Roniwalter Jatobá, só a capacidade de sobrevivência em meios às condições mais adversas e o apego à esperança quando todas as portas para uma vida melhor parecem trancadas por dentro, para que os pobres não possam entrar na Terra Prometida da justiça social. (mais…)

As quatro geografias íntimas de Vasconcelos Maia dezembro 16, 2016

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VALDOMIRO SANTANA*

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Elieser César. Vasconcelos Maia: contista da gente baiana.

Coleção Gente da Bahia, vol. 40. Salvador: Assembleia

Legislativa do Estado da Bahia, 2016, 200 p.

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Saiu-se muito bem Elieser César neste livro em cujo título chama Vasconcelos Maia de contista da gente baiana. Livro que se lê como um painel composto de quatro partes que se imbricam: a Cidade do Salvador, o mar da Bahia, os candomblés, pequenos sertões.

Quatro geografias distintas e com seus amálgamas secretos. O que cada uma tem de muito peculiar, surpreendente e mesmo espantoso. Em todas elas, gente — que é a matéria viva da literatura. Gente que anima a paisagem das ruas, becos, ladeiras, mercados, igrejas desta cidade velha, de seus terreiros de orixás e do único, o dos babás ou eguns, que são os espíritos dos ancestrais africanos, em Itaparica. Gente que, de tanto navegar nas águas da Baía de Todos os Santos, conhece no corpo e na alma a força de seus ventos e correntes, ondas e marés, sua profundidade, pontos de cardumes, ilhas, penínsulas, angras, portos. Gente da caatinga e que lá resiste, onde o sol é mais cru e desolador, pois com o poder de secar tudo. (mais…)