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ÉDIPO CAATINGUEIRO – Em O homem da lupara amarela, Alfredo Gonçalves de Lima Neto se inspira em Sófocles para criar uma tragédia no sertão. abril 1, 2017

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Lupara

Em companhia de um amigo, um rapaz viaja para Crato, no sertão do Ceará, para conhecer a festa do padre Cícero Romão Batista, o Padim Ciço dos devotos nordestinos. Lá, ouve de uma cigana a terrível profecia: “Estás fadado a deitares com tua mãe e também a matares o teu pai! ”. Até então de boa índole, o jovem se assusta. Volta para casa, mas não consegue esquecer a previsão da mulher. Teria o vaticínio a mesma força, inelutável e cega, que rege o destino fechado dos heróis caídos da tragédia grega?

A resposta está no romance O homem da lupara amarela do escritor Alfredo Gonçalves de Lima Neto, médico nascido em Salvador e radicado em Valença, no baixo sul da Bahia., que transplanta para o sertão baiano o cerne da desdita de Édipo Rei, a mais conhecida tragédia de Sófocles (496 ou 494 a.C – 406 a.C). (mais…)

ALMAS MORTAS – Em As Feras, o argentino Roberto Artl, dente outas histórias, faz a radiografia de um escritor fracassado. janeiro 28, 2017

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as-feras

Poucas histórias desnudaram tão cruamente o egocentrismo mesquinho da criação e os embustes da crítica literárias como o conto O escritor fracassado, um dos oito relatos de As Feras, do escritor argentino Roberto Arlt. É história de um jovem e promissor escritor, incensado pela crítica, admirado e invejado por seus pares, que publica um livro de sucesso, que, depois da estreia bem-sucedida, sucumbe à mais absoluta esterilidade, sendo, doravante, incapaz de escrever uma linha que preste.

A angústia da criação bloqueada leva o rapaz à autocomplacência de acreditar que está passando por um período passageiro, ao final do qual brotarão as grandes obras gestadas na aflição e no sofrimento. Ele chega a encontrar um álibi para a sua inatividade: já não escreve  com a facilidade de  antes porque o seu grau de exigência aumentara:

Se eu não produzia como certos escrevinhadores alcunhados de coelhos ou moços de recados da literatura, era porque estava ficando exigente. Isso mesmo. E a exigência bem entendida começa em casa. Nada de produzir a rodo sem quê nem porquê.; nada de sem derramar, nem de trabalhar dia e noite e noite e dia, nem de infestar os jornais com a assinatura. Isso não era digno de um escritor que se preze.

– Amigos – perorava enfático, – Amigos, temos que ser um pouco exigentes, conservar o pudor da assinatura. (mais…)

BARTEBLY À BRASILEIRA – Em O Amanuense Belmiro, Cyro dos Anjos cria um burocrata lírico. janeiro 15, 2017

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belmiro

Saudado pelo crítico Antônio Cândido como uma obra-prima, “pela impressão de acabamento de segurança, de equilíbrio, de realização quase perfeita que revela o artista profundamente consciente das técnicas e dos meios de seu ofício e possuidor de uma visão pessoal das coisas, lentamente, cristalizada no decorrer de longos anos de estudo”, O Amanuense Belmiro, romance escrito em 1937 pelo mineiro Cyro dos Anjos, completa, agora, em 2017, oitenta anos. Passadas oito décadas, o livro “de um burocrata lírico”, como definiu o mesmo Antônio Cândido, continua com um viço de uma obra que acaba de sair do prelo para permanecer nas prateleiras de qualquer estante que resista ao tempo e às releituras mais exigentes.

Tímido, celibatário e introspectivo, Belmiro Borca regula pelos 40 anos sem nunca ter feito nada de especial ou de marcante na vida. Vive a mesma rotina cartorial e doméstica; do cartório para casa, sempre, ao lado de duas irmãs velhas, uma das quais sofrendo das faculdades mentais, com interregnos sociais restritos a poucos amigos e a conversas regadas a chope, em doses moderadas, como convém a um homem excessivamente moderado.

Belmiro Borga é um primo distante de Bartebly, o escriturário abúlico e robotizado de Herman Melville. (mais…)

VIVA O POVO BRASILEIRO! dezembro 22, 2016

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– Em Histórias da Gente Brasileira, Mary Del Priore coloca a massa anônima no palco das grandes transformações do país.

Em geral os livros de história relatam os grandes acontecimentos, guerras, conquistas, descobertas, invenções e outros fenômenos protagonizados por grandes homens e mulheres: generais, imperadores, rainhas, princesas, grandes navegadores, cientistas, artistas, líderes políticos e religiosos etc. O povo só aparece como coadjuvante para compor números e o pano de fundo dos fatos cruciais que transformaram as sociedades ao longo dos séculos. Em seu novo livro, Histórias da Gente Brasileira (São Paulo: Leya, 2016) a historiadora Mary Del Priore rompe com esta lógica perversa e coloca a massa anônima no proscênio da História como fio condutor de seus relatos, o primeiro volume sobre a vida no Brasil colonial.

A obra será uma tetralogia que passará pelo Império, a Era Vargas e terminará no Brasil moderno. Já no prefácio, a historiadora avisa que, no livro, o leitor “há de conhecer uma história do Brasil diferente; não aquela dos grandes feitos, nomes e datas que marcaram o nosso passado; tampouco aquela dos fenômenos extraordinários que provocaram rupturas na nação, mas as histórias do dia a dia, ou melhor, de todos os dias da semana”. São, como ressalta Mary Del Priore, “histórias feitas por personagens anônimos do passado, que raramente nos sãos apresentados, pois se confundem com o tecido social em construção; uma história da gente brasileira no labor cotidiano, inventando, produzindo e ganhando o pão de cada dia. Sim, no gerúndio mesmo, pois a vida real se passa nesta forma de verbo”. (mais…)

A CLASSE OPERÁRIA NÃO VAI AO PARAÍSO – Em No Chão da Fábrica, Roniwalter Jatobá é o cronista da exploração do proletariado. dezembro 17, 2016

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convite-de-rj

“Tudo miúdo, até a vida”.

(Do conto Pano Vermelho)

 

Ao que me consta, foi Amando Fontes com Os Corumbas, romance de 1933 sobre o calvário e a desagregação de uma família sergipana na cidade grande pré-industrializada, que introduziu a fábrica (e, por extensão, o proletariado) na literatura brasileira. Quase meio século depois, o mineiro Roniwalter Jatobá amplia o tema apenas sugerido por Amando Fontes e faz da exploração do operário – o migrante nordestino que fugiu da seca e da miséria para viver na periferia de São Paulo – o leitmotiv de sua obra, sobretudo deste No Chão da Fábrica, (São Paulo: Nova Alexandria, 2016), que acaba de sair do pátio da indústria de personagens miúdos, derrotados e desencantados em que se transformou a ficção desse autor que deixou o interior da Bahia, onde foi chofer de caminhão,  para ser também operário na maior metrópole do Brasil.

No Chão da Fábrica é a reunião de três livros anteriores de Jatobá: Sabor de Química, de 1976; Crônicas da Vida Operária (1978) e a novela, visceral e dolorosa, Tiziu (1994). Em comum com as três a utilização do peão de fábrica como personagem coletivo de uma tragédia brasileira: a impiedosa exploração do trabalhador iludido com as promessas jamais cumpridas do “milagre brasileiro”, a maior peça de marketing político da ditadura militar instalada no país em 1964. De milagre mesmo para os deserdados da sorte, os humilhados e ofendidos de Roniwalter Jatobá, só a capacidade de sobrevivência em meios às condições mais adversas e o apego à esperança quando todas as portas para uma vida melhor parecem trancadas por dentro, para que os pobres não possam entrar na Terra Prometida da justiça social. (mais…)

As quatro geografias íntimas de Vasconcelos Maia dezembro 16, 2016

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capa-vm

VALDOMIRO SANTANA*

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Elieser César. Vasconcelos Maia: contista da gente baiana.

Coleção Gente da Bahia, vol. 40. Salvador: Assembleia

Legislativa do Estado da Bahia, 2016, 200 p.

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Saiu-se muito bem Elieser César neste livro em cujo título chama Vasconcelos Maia de contista da gente baiana. Livro que se lê como um painel composto de quatro partes que se imbricam: a Cidade do Salvador, o mar da Bahia, os candomblés, pequenos sertões.

Quatro geografias distintas e com seus amálgamas secretos. O que cada uma tem de muito peculiar, surpreendente e mesmo espantoso. Em todas elas, gente — que é a matéria viva da literatura. Gente que anima a paisagem das ruas, becos, ladeiras, mercados, igrejas desta cidade velha, de seus terreiros de orixás e do único, o dos babás ou eguns, que são os espíritos dos ancestrais africanos, em Itaparica. Gente que, de tanto navegar nas águas da Baía de Todos os Santos, conhece no corpo e na alma a força de seus ventos e correntes, ondas e marés, sua profundidade, pontos de cardumes, ilhas, penínsulas, angras, portos. Gente da caatinga e que lá resiste, onde o sol é mais cru e desolador, pois com o poder de secar tudo. (mais…)

REALISMO SECO – Em Que assim seja, o poeta Luís Pimentel faz chover na poesia e estiar no sertão. novembro 24, 2016

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Em seu novo livro de poesia, Que assim seja (Itabuna: mondrongo, 2016), o escritor e jornalista Luís Pimentel emite um timbre confessional, quando fala das perdas que acumulou na vida, como a morte da mãe, e também um tom coletivo, como nos instantes em que pinta, com pincel escaldante, o drama da seca no sertão; o mesmo sertão em que o menino Luís – natural da pequena Itiúba, no semiárido baiano – deu os primeiros passos, entre bois, vacas, jumentos, mandacarus, umbuzeiros, vaqueiros, feirantes, beatas, todos castigados pela longa estiagem, num lugar em que “o sol que ilumina é o mesmo que mata”.

Nesta região inclemente, o poeta vê “o menino, a sede, a seca/formando um só espantalho/braços abertos pro nada/entre o curral e a caatinga”.Sim, porque Luís Pimentel foi um desses nordestinos que muito cedo migrou para o sul do país, em busca de um sol mais ameno e de uma vida mais tranquila, que vieram com o jornalismo, a literatura, a família e novos e velhos amigos. Hoje, completamente integrado ao Rio de Janeiro, ao ponto de ser um porta-voz literário da velha boêmia da música carioca, Luís Pimentel nunca se deu por satisfeito, pois para o artista, mesmo empanturrado de vida, sempre falta algo:

Todos os dia me reescrevo.

É o que diz o Pimentel , à maneira ceciliana de reinventar a vida, em “Revisões”.

O poeta caminha consigo mesmo , com orgulho estoico, nos versos de “Que assim seja”, o poema que abre o livro:

Não vou mendigar dias melhores.

Basta o dia, feito de dias que amanhecem,

das horas que somam e se repetem,

em noites e em mais noites sorrateiras.

Assim vou remoendo o que assim seja.

Mesmo com os “sonhos a escorrer por entre os dedos”, o artista enfrenta todos os percalços da vida com o determinismo teimoso de tragédia grega:

Aprendi a a não pedir outro destino.

Ou, se preferem:

Aprendi a crescer desde menino.

De que forma?

Minguado por fora, crescendo por dentro,

planta regada em banho-maria:

água contada, turva, suja e fria.

Neste mundo em que é preciso ir em frente, até o fim, “o espelho é o que nos diz, sem cerimônia/que a nova batalha se inicia”. Porém, como ninguém é de ferro, “é preciso o descanso/entre uma rasteira e outro paulada”. Neste contexto desanimador, “pensar que temos Deus é um negócio;/conforta, o calor se instala/a fúria some”. O homem, no entanto, continua de pé e tenta se reescrever todos os dias, “pois as lutas são filha das esperança”.

Em “Olhar”, a dor provocada por um retrato na parede ( como aquele de Itabira do poema de Carlos Drummond de Andrade):

O retrato de minha mãe

olha-me da escrivaninha

sei que não são os olhos dela

que ainda velam a penumbra.

Ao lado do menino na roça (como veremos adiante), ou na saudade do adulto (como mostramos agora, em “Esquinas”) a figura da mãe é presença marcante:

Não peguei minha mãe no colo

quando ela mais precisava.

Não consigo fazer o nó virar lágrimas,

nem naquele dia nem no outro.

Tema universal de todos os poetas, o tempo é o assunto dos versos de “Passageiro”:

Se nem a árvore do tempo

ao tempo resiste, tudo passa:

a dor, o dilema, o descompasso

e também a festa que nos alegra,

o sol e o mormaço.

Face à gulodice do tempo que a tudo devora, a poesia é um lenitivo para a vertiginosa velocidade da vida (“Dito não dito”):

Assim seja esse canto,

essa magia. O que nos faz

levantar, seguir em frente.

MORTE E VIDA SEVERINA

Na segunda parte do livro, Poemas Secos, Luís Pimentel parece empunhar um espinho de mandacaru para escrever, no solo crespo do sertão, um Morte e Vida Severina, ao modo dele. Os poemas que tratam da seca e de seus reflexos socioeconômicos, como o longo “Poema Seco”, vêm em linguagem desidratada como um açude sem água:

Seco

o focinho do cão

e o olho da cobra.

Morto tudo o que um dia

ousou chamar-se vida,

morta a vida, como as

Sementes e as Severinas.

No céu sem nuvens do sertão, sem o menor prenúncio de chuva no ar, o sertanejo religioso perde a fé e a esperança, e:

Pergunta ao pai

Ao filho

Ao espírito santo

Ao porco enlameado

Ao cabrito esturricado

À primeira pedra:

Por que me abandonaram?

Em “Sonho”, o menino segue com a mãe pelo caminho da roça. Ele carregando gravetos. Ela empurrando um carrinho.O fardo dele “era espinhento”. O da mãe, “pesado”. O poeta concluí:

De nós, nenhum deus sabia.

O êxodo rural, impelido pela longa estiagem, é tratado no poema “Medos guardados”:

O ônibus que leva o homem

para bem longe o leva para

onde ele desconhece.

Rio de Janeiro, São Paulo ou outra metrópole do sul do país? Nem o retirante sabe ao certo:

O homem sabe que vai chegar

em uma cidade qualquer, que é outra

e não aquela, carregando sua mala azeda,

o ombro curvado ao peso do medo

que faz doer as tripas […]

Tem razão o poeta Antonio Brasileiro quando, na orelha do livro, diz que “o tom confessional de muitos poemas contrasta com o ‘seco’ realismo de outros, como o longo e excelente Poema Seco”.

No poema “Fim”, que fecha o livro, o poeta fala da partida (entrega ou recomeço?) em que é preciso “tirar o fardo das costas e prosseguir/na escuridão do caminho”. Por isso parte, “com saudades do porvir/que não verei/que não terei,/sequer senti”.

E se não há outro caminho mais suave, uma estrada mais amena, bem, que assim seja!

VERSOS AFIADOS – Em Tesoura Cega, Carlos Machado corta fundo e vai além da superfície da poesia. novembro 22, 2016

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Responsável, há quase uma década e meia, pela divulgação de boa parte da poesia brasileira e do mundo, através do site poesia.net, o jornalista e escritor baiano radicado em São Paulo, Carlos Machado, é também um poeta acostumado a afiar os versos na pedra do tempo e no esmeril da vida. Em Tesoura Cega (São Paulo: Dobra Editorial, 2015), Machado fala do exílio que estribilha no peito de todo homem como uma canção insistente, do tempo e de sua filha mais rebelde, a memória, que teima em não esquecer os fatos, inclusive os mais triviais da existência.

Diferente de autores mais expansivos, verborrágicos e até torrencialmente líricos (como, meste último caso, Pablo Neruda, por exemplo), Carlos Machado sabe cantar “o si menor do silêncio”. Convicto de que “certo, apenas a incerteza” (“Mapa”), o poeta intuí que não é fácil pescar nas águas mais profundas e turvas da vida, e que, por esta razão, seria melhor abandonar todas as ilusões, como se pode perceber nos versos do poema “Pescaria”:

E lanço

a fundo perdido

todos os meus

anzóis.

 

O poeta parece dizer que neste jogo de sorte e azar que é a vida, todo investimento deve ser feito a fundo perdido, sem nada esperar em troca pois, afinal, como já disse Drummond, no poema “Noturno à janela do apartamento”, o último de Sentimento do Mundo, “a soma da vida é nula”. Gesto que não impede o artista de continuar enxergando diferente dos homens comuns, como se dotado de uma clarividência invejável, de um sexto sentido que o faz, nos versos de “Olho”, ver muito além do óbvio de cada dia, ou da chuva mansa das vidas apaziguadas:

Não falo, claro, do

olho oftálmico, mas de

outro olho mais dentro,

mais no centro da

tempestade. (mais…)

MILITÂNCIA SECRETA  DA POESIA – Em Adeus, Fernando Pessoa, Paulo Martins discute o dilema entre a poesia e a politica, o poeta libertário e o militante partidário. novembro 12, 2016

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livro

Há espaço para a poesia, e, ainda mais,  para a criação poética, em um mundo ameaçado pela injustiça e pela opressão, com o agravante de que  uma ditadura anunciada vem sendo gestada qual  serpente no ovo? Num cenário como este, não seria melhor abandonar quaisquer veleidades artísticas e partir para o confronto, armado se necessário, com as forças conservadoras que preparam um golpe contra a frágil democracia? Não urge, neste contexto, deixar a poesia para uma época mais propícia aos transportes líricos?

É este o dilema enfrentando por Trajano, um jovem poeta, estudante secundarista e aprendiz de revolucionário, principal personagem do  romance Adeus, Fernando Pessoa (Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014) , do escritor baiano Paulo Martins. Diante do agravamento da crise política e institucional do Brasil do início dos anos 60 do século passado, Trajano se divide entre a contemplação e a ação; entre as musas etéreas e o monolitismo ideológico  do Partido Comunista. Assim o poeta-militante resume sua dúvida crucial: (mais…)

OUTRAS VOZES – Em Milênios, novo livro de poesia, Ruy Espinheira Filho revisita os grandes poetas do passado. outubro 27, 2016

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milenios

A poesia – como a arte em geral –  é dotada de uma natureza de infinito, que a faz perdurar na memória dos homens e sobreviver através das gerações. Por esta característica peculiar e outras razões mais profundas, a poesia, como definiu o poeta e ensaísta mexicano Octávio Paz (1914-1998), “é a outra voz, a voz das paixões e das visões, de outro mundo e deste mundo, antiga e de hoje mesmo, antiguidade sem datas”. Essa presença atemporal da poesia ganha alento nas páginas de Milênios, novo livro do poeta e escritor baiano Ruy Espinheira, lançado pelo Patuá Editora. Poeta da memória, como já se disse muitas vezes, nos poemas desta coletânea Ruy Espinheira Filho celebra a permanência de artistas separados por séculos, de parentes e amigos, inclusive os mortos que ainda vêm sentar à  mesa do poeta, até que ele mesmo vá um dia, como todos nós, sentar-se  à mesa deles, como no  Soneto das Mesas, escolha feliz que abre o livro.

No grande (tanto no sentido estético quanto espacial) poema que empresta título ao livro, vemos  Ruy Espinheira Filho – num reconhecimento ao legado coletivo, também “a outra voz”  –  caminhar  com uma legião de poetas, filósofos e escritores, num passeio com a antiguidade sem datas da poesia.  Em Milênios, o poeta caminha com Alcmã, “para alguns o inventor da poesia amorosa”, anda com Mnermo, de Colofão, a lembrar que “breves são as flores da juventude”; é convidado por Alceu, de Mitilene, a beber o vinho ofertado por Zeus e Sêmele para esquecermos nossas penas; evoca “a grande Safos de Lesbos, transverberada pelo amor”;  ouve Píndaro definindo o homem como “o sonho de uma sombra”, aprende, através de Baquílides, que “não é fácil alcançar a porta das palavras nunca ditas”, embora os bons poetas guardem as chaves dessas portas. Dialoga com Platão, ainda que o filósofo não quisesse os poetas em sua República; aproveita o dia  como Horácio; e ainda menciona Ovídio, Petrônio, Catulo, Virgílio, Sêneca, Sidônio, Nemesiano e outros; tão próximos por esses milênios estreitados pelo engenho e pela arte: (mais…)