jump to navigation

VERSOS AFIADOS – Em Tesoura Cega, Carlos Machado corta fundo e vai além da superfície da poesia.

 

tesoura_cega

Responsável, há quase uma década e meia, pela divulgação de boa parte da poesia brasileira e do mundo, através do site poesia.net, o jornalista e escritor baiano radicado em São Paulo, Carlos Machado, é também um poeta acostumado a afiar os versos na pedra do tempo e no esmeril da vida. Em Tesoura Cega (São Paulo: Dobra Editorial, 2015), Machado fala do exílio que estribilha no peito de todo homem como uma canção insistente, do tempo e de sua filha mais rebelde, a memória, que teima em não esquecer os fatos, inclusive os mais triviais da existência.

Diferente de autores mais expansivos, verborrágicos e até torrencialmente líricos (como, este último caso, Pablo Neruda, por exemplo), Carlos Machado sabe cantar “o si menor do silêncio”. Convicto de que “certo, apenas a incerteza” (“Mapa”), o poeta intuí que não é fácil pescar nas águas mais profundas e turvas da vida, e que, por esta razão, seria melhor abandonar todas as ilusões, como se pode perceber nos versos do poema “Pescaria”:

E lanço

a fundo perdido

todos os meus

anzóis.

 

O poeta parece dizer que neste jogo de sorte e azar que é a vida, todo investimento deve ser feito a fundo perdido, sem nada esperar em troca pois, afinal, como já disse Drummond, no poema “Noturno à janela do apartamento”, o último de Sentimento do Mundo, “a soma da vida é nula”. Gesto que não impede o artista de continuar enxergando diferente dos homens comuns, como se dotado de uma clarividência invejável, de um sexto sentido que o faz, nos versos de “Olho”, ver muito além do óbvio de cada dia, ou da chuva mansa das vidas apaziguadas:

Não falo, claro, do

olho oftálmico, mas de

outro olho mais dentro,

mais no centro da

tempestade.

 

Visão que levará o poeta, a “mergulhar nos pantanais de si mesmo” (“Desafio”), e, mais na frente, a concluir que “somos todos exilados” (“Canção de exílios”). De uma pungente crônica do escritor Valdomiro Santana (também baiano), “Pastelaria Triunfo”, Carlos Machado, num poema homônimo, imerge na memória e faz imergir um tempo que não se esgotou, que jamais se esgotará, por permanecer na lembrança:

 

[…] Cada um

de nós tem sua Pastelaria Triunfo,

seu porto de sonhos à prova

de vento e desterro.

 

“Encontro” é uma epifania rural, que se desfaz rapidamente como toda visão de outro mundo. No poema, um anjo, que sequer sabe o próprio nome, franzino, pardo e coxo, se aproxima, para logo desaparecer, deixando em seu etéreo rastro “apenas um monte de terra formigas e raízes de mandioca”. E é bom que o tal anjo suma rapidamente, pois o poeta compreende que “quando menos se espera, já é tarde” (Xeque-Mate).

Coerência? Que coerência esperar dos vivos, já que viver é mudar, de lugar, de ideias, de feição e até de nome; não importa. Diz Carlos Machado em “Os mortos”:

 

Só os mortos são coerentes

 

Na grande metrópole, um pombo coxo que aterrissa, desajeitado na praça, dá lição de sobrevivência ao homem, também mancando entre milhares de outros homens: “O pombo coxo resiste. Para, bica, olha em frente,/apoiado sobre o coto de uma perna sem pata” (“Pombo”).

Na terceira parte de Tesoura Cega, intitulada “Brinquedo de Chronos”, o tempo, inexorável e só resgatável na memória, é a matéria-prima do poeta; Chronos o que vence sempre, para o desespero dos homens, condenados aos caprichos do tempo, senhor absoluto da vida e da morte.

mas Chronos, o Implacável, o Cruel

entre os cruéis, sempre dá as cartas

no derradeiro e verdadeiro instante.

 

“Primeiro e único”, no poema “Runas”, Chronos é, nos versos de “Pedra” a “prova de que o tempo/tem peso/e dói como um caminho que nunca chega”. Em “Unhas”, o poeta parece concordar com João Guimarães Rosa, para quem “a felicidade se acha é horinhas de descuido”. Depois de garantir que “a alegria é privilégio dos puros”,  Carlos Machado cromatiza:

A alegria é verde.

Aquela canção sem motivo

que aparece na garganta.

Aquele assobio impreciso

que sai do peito,

discreto

e se dissolve sem ponto de chegada.

 

Observador atento, o artista brinca com o sexo apressado dos galos: “O galo tem seu instante de falo”. Em “Josué”, ironia corrosiva:

 

se você estiver cansado

de si mesmo,

vá ao cartório civil e troque seu nome para Josué

 

depois, com a nova certidão

no bolso, corra

desembestado pelas ruas

gritando: sol, para! Sol, para!

 

Isso não resolve sua dor

nem vai frear

o giro da Terra, mas

propicia um belo espetáculo.

 

A SOLIDÃO MAIS ATROZ

 

Inspirado num quadro do pintor estadunidense Edward Hopper, em que uma mulher está sentada diante de um piano e um homem lê jornais, ambos dividindo o mesmo espaço da casa, “Room in New York” tematiza a solidão mais atroz, aquela que dois seres vivem mergulhados no seu mundinho pessoal e não podem se comunicar. O poema é concluído com versos dolorosos, mas compreensivelmente humanos: “Não há ninguém/na sala”.

Em “Trama”, versos que pegam o leitor de surpresa, como uma brincadeira fora de hora: “Quanto fermento seria/ necessário para compor o pão de cada/ dúvida?”.  “Bodas” desconstrói a harmonia familiar, ao malbaratar as ilusões domésticas:

 

O pai

abençoa

 

a mãe chora e abençoa

 

o tempo

ri – ri e atraiçoa

 

“Ofício” traz a marca da traição, da traição mais inesperada, embora visível: “Basta dizer:/ os espinheiros florescem/ na varanda”. Talvez, o mais belo poema do livro de Carlos Machado, “Mãe” é uma oração telúrica e pagã, prece pelo bom acolhimento aos mortos. Pela sua comovente beleza, o poema merece ser reproduzido na íntegra:

 

Mãe

 

Earth. Receive an honoroured guest:

           William Yeats is laid to rest.

W.H. Auden, “In memory of W.B Yeats”.

 

Recebe, Terra, e abriga

esse teu irmão

este teu igual

que de ti andou apartado.

 

Acolhe-o no chão

tu, que és mãe

braço e berço

colo e útero.

 

Ensina-lhe o segredo do fogo

a natureza do ferro

a cadência da chuva.

 

Integra-o, sereno,

à vibração das esferas

e deixa-o dormir em paz.

 

– até que se consumam

o carvão dos séculos

e o último átomo de pó.

 

Corta fundo, este Tesoura Cega de Carlos Machado.

 

 

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: