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ENTREVISTA COM ERNESTO SABATO*: agosto 18, 2018

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“CRIAMOS O QUE NÃO TEMOS, O QUE ANSIOSAMENTE NECESSITAMOS”

O escritor e seus fantasmas.

Eu estava de pé na porta do café da rua Guido, em Buenos Aires, quando vi Sabato chegar. E quando já ia lhe falar, senti que um fato inexplicável se produzia: apesar de manter o olhar em sua direção, Sabato seguiu em frente, como se não me tivesse visto. Deixei-o seguir, certamente absorto com as suas obsessões sobre uma seita de cegos que, das catacumbas, dos esgotos e dos subterrâneos, na companhia de dragões, ratos, morcegos, fuinhas e outros seres abjetos do mundo das trevas, conspirava secretamente para dominar o mundo.

Dias depois, encontrei Sabato no café La Biela, onde ocorreu esta entrevista. Nela, o escritor argentino discorre sobre a literatura e a arte, “a única potência que parece nos salvar da transitoriedade e da inevitável morte”; fala sobre a necessidade da criação; das picuinhas entre escritores (“para admirar se necessita grandeza”); da obrigação do escritor, “dizer a verdade com letras maiúsculas”, alfineta as novidades formais – “a genuína obra de arte não é um ato de virtuosismo, e sim um nascimento” – e ainda aconselha a um jovem artista: “além do talento e do gênio, você vai precisar de outros atributos espirituais, como a coragem para dizer a verdade e a tenacidade para seguir adiante”. Confiram:

Elieser Cesar – Como define a arte?

Ernesto Sabato – A única potência que parece nos salvar da transitoriedade e da inevitável morte.

EC– Por que toda essa urgência em escrever sobre o lado sombrio do homem, satanismo, crueldade, traição, incesto, fratricídio e outras temas?

ES – Para que o martírio de alguns não se perca no tumulto e no caos, mas possa alcançar o coração de outros homens, a fim de emocioná-los e salvá-los.

EC – A arte deve, necessariamente, salvar o mundo?

ES – De que maneira, quando, de que forma um coral de Bach ou um quadro de Van Gogh serviram para que uma criança não morra de fome. Teremos que renegar toda literatura, toda música, toda pintura.

EC – O que leva o artista a criar?

ES – Criamos o que não temos, o que ansiosamente necessitamos.

EC – Como se sente diante da finitude do homem?

ES – Como é possível se conformar em ter sido posto de forma involuntária neste planeta e, em sua devida hora, asquerosamente velho, ser expulso em meio a dores horríveis, sem receber nem explicações nem desculpas?

EC – Como explica o ressentimento entre artistas?

ES – Embora pareça paradoxal, para admirar se necessita grandeza. Por isso tão pouca vezes um criador é reconhecido por seus contemporâneos: quem o faz é quase sempre a posteridade, ou pelo menos essa espécie de posteridade contemporânea que é o estrangeiro, as pessoas que estão longe, as que não veem como você se veste.

EC- Pode dar exemplos?

ES – Quando o ressentido do Saint-Beauve afirmou que nunca aquele palhaço do Stendhal poderia fazer uma obra-prima; Balzac disse o contrário. De Brahms, riram pessoas semelhantes a Saint-Beauve. Enquanto Schumann, o maravilhoso Schumann, o infelicíssimo Schumann, afirmou que tinha surgido o músico do século. Quando surgiu o primeiro volume de Proust (depois de Gide jogar os manuscritos na cesta do lixo), um certo Henri Ghéon escreveu que esse autor tinha se “aferrado em fazer o que é diametralmente o contrário de uma obra de arte, o inventário de suas sensações, o recenseamento de seus conhecimentos, num quadro sucessivo, jamais de conjunto, nenhuma totalidade, mobilidade das paisagens e das almas”.

EC – O tem a dizer para um jovem escritor?

ES – Além do talento e do gênio, você vai precisar de outros atributos espirituais: a coragem para dizer a sua verdade, a tenacidade para seguir adiante, uma curiosa mistura de fé no que tem a dizer e de reiterada descrença em suas forças, uma combinação de modéstia diante dos gigantes e de arrogância diante dos imbecis, uma necessidade de afeto e uma valentia para estar sozinho, para evitar tentações, mas também o perigo dos grupinhos.

– EC – O que fazer nestes instantes de dúvida?

ES – Ajudará a lembrança dos que escrevem sozinhos; num barco, como Merville; numa aldeia, como Faulkner; numa selva, como Hemingway. Se está disposto a sofrer, a se dilacerar, a suportar a mesquinharia e a malevolência, a incompreensão e a estupidez, o ressentimento e infinita solidão, então sim, está preparado para dar seu testemunho.

EC – Como escolher um bom tema?

ES – Não há temas grandes e temas pequenos, assuntos sublimes e triviais. Os homens é que são pequenos, grandes, sublimes ou triviais. A “mesma” história do estudante pobre que mata uma agiota pode ser uma mera crônica policial ou Crime e castigo.

EC – Como vê as vanguardas e os movimentos que se dizem revolucionários na arte?

ES – As novidades formais não são indispensáveis para uma obra artisticamente revolucionária, como demonstra o exemplo de Kafka; e que tampouco bastam, como demonstra tanta coisa cometida pelos manipuladores de sinais de pontuação e técnica de encadernação.

EC –  E quando tal manipulação se dá na poesia?

ES – A genuína obra de arte não é um ato de virtuosismo, e sim um nascimento. E o que poderia se falar de um parturiente que dá à luz com virtuosismo? Isso é patrimônio de comediantes, que partem do ponto em que os verdadeiros artistas se detêm. Esses indivíduos conjuram com palavras uma magia de salão, ao passo que um grande poeta não trafica emoções: sofre a visionária tensão do homem com seu destino.

EC – Hoje, com livros sobre celebridades que nada têm o que dizer, com a enxurrada de obras de autoajuda que servem para o autor ajudar a si próprio a ganhar fama e dinheiro, parece que há uma certa literatura na moda…

ES- A moda vale para as roupas ou os penteados, não para romances ou catedrais. Que uma mulher esteja na moda, é natural; que um artista queira estar na moda, é abominável.

EC –  O senhor crê na arte proletária, como defendia o famigerado Realismo Socialista?

ES – O que é isto? Onde está? Refere-se a estes cartões-postais coloridos com Stálin a cavalo dirigindo batalhas em que nunca esteve? Estes cartões-postais de mau gosto que aquele homem acreditava ser o máximo da estética revolucionária e que eram o auge do naturalismo burguês. É curioso, e digno de reflexão: as revoluções sempre parecem preferir a arte reacionária e superficial. Não é Delacroix o artista da Revolução, mas David, e outros piores, ainda mais acadêmicos. E enquanto Stálin caía em êxtase diante desses produtos, proibia a grande arte ocidental.

EC – Como vê esse tipo de literatura repleta de contorcionismos verbais e vazia de conteúdo e de sentido, tão ao gosto das vanguardas?

ES – Acredito que temos o direito de rejeitar o jogo frívolo, a mera engenhosidade, a diversão verbal…Porém devemos ter o cuidado de não repudiar os grandes e dilacerados criadores que são o mais terrível testemunho do homem. Porque eles também lutam pela dignidade e pela salvação. Sim, é verdade, a imensa maioria escreve por motivos subalternos, pois eles buscam a fama ou o dinheiro, têm facilidades, não resistem à vaidade de se ver impressos, por distração ou jogo. Mas restam os outros, os poucos que contam, os que obedecem à uma obscura condenação de testemunhar seu drama, sua perplexidade num universo angustiado, suas esperanças em meio ao horror, à guerra e à solidão.

EC – Quem são esses?

ES – Os grandes testemunhos de seu tempo. São seres que não escrevem com facilidade e sim com dilaceração. Homens que sonham um pouco o sonho coletivo, expressando não só suas ansiedades pessoais, mas as da humanidade inteira…. Esses sonhos podem até mesmo ser assustadores. Porém são sagrados. E servem justamente porque são assustadores.

EC – Em Abadon, o exterminador, o senhor é personagem do romance.

ES – Não estou falando de um escritor dentro da ficção. Falo da possibilidade mais radical de que o próprio escritor do romance é que esteja dentro. Não como um observador, como um cronista, como uma testemunha.

EC – E qual o dever do escritor de ficção?

ES – Nada menos que dizer a verdade. Mas a verdade com letras maiúsculas. Não uma dessas verdades pequeninas que lemos nos jornais todos os dias. E, acima de tudo, as mais escondidas.

* As respostas para esta entrevista fictícia foram enxertadas de trechos do romance Abadon, o Exterminador (1974) que, juntamente com O túnel (1948) e Sobre heróis e tumbas, formam a trilogia de Buenos Aires.

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ESCRITOR, O GUARDIÃO DA MEMÓRIA julho 25, 2018

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Ernesto Sábado, puxando a memória.

Creio que, dentre todas as artes, a literatura é aquela que mais depende da memória e também a que mais procura preservar o passado, através da fragilidade duradoura das palavras. Daí ser o escritor, por excelência, o guardião da memória, dos tempos imemoriais e homéricos ao passado mais recente. A memória é a faculdade que não deixa nenhum ato, por mais trivial que possa parecer, caiar no esquecimento, como um cheiro que vem da cozinha da infância, desencadeia no adulto as mais nítidas impressões e o faz empreender o resgate proustiano do tempo perdido.

A memória é capaz de transformar as perdas, por mais insidiosas e dolorosas que sejam (um amor contrariado, a morte de uma pessoa amada, os oito anos da infância querida) numa cintilante canção da permanência, como ocorre (para citar um exemplo) na poesia de Ruy Espinheira Filho. Ela é tudo o que restará de pé e radiante sobre os escombros da longínqua juventude. Por isso, para marcar o Dia do Escritor (25 de julho) me reporto a este trecho memorável do romance “Sobre heróis e tumbas”, do argentino Ernesto Sábato:

“Porque a memória é o que resiste ao tempo e a seus poderes de destruição, e é algo assim como a forma que a eternidade pode assumir nesse incessante trânsito. E ainda que nós (nossa consciência, nossos sentimentos, nossa dura experiência) vamos mudando com os anos, e também nossa pele e nossas rugas vão se convertendo em prova e testemunho desse trânsito, há algo em nós, lá muito dentro, lá em regiões muita escuras, aferrado com unhas e dentes a infância e ao passado, à raça e à terra, à tradição e aos sonhos, que parece resistir a este trágico processo: a memória, a misteriosa memória de nós mesmos, do que somos e do que fomos. Sem a qual (e que terrível há de ser então! se dizia Bruno) esses homens que a perderam como em uma formidável e destrutiva explosão daquelas regiões profundas, são tênues, incertas e levíssimas folhas arrastadas pelo furioso e sem sentido vento do tempo”.

(mais…)

ENCONTRO MARCADO julho 18, 2018

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Não importa, se vens para a  guerra ou a paz,

com roupa branca ou armadura medieval.

Para mim, tanto faz,

se marchas para o bem ou para mal.

Não importa a real intenção:

esperarei com uma flor na mão,

CHUVA julho 3, 2018

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Para Suzana Alice, eticaecológica.

Caem as águas da vida,
em nossas mãos.
A todo dia,
a qualquer hora,
caem, aos pouquinhos,
essas águas,
da vida,
em nossas mãos.

O TRONO DO DESENGANADO – FINAL junho 10, 2018

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Aloendra gostava de olhar o homem de boa aparência que parecia não dar mais nenhuma importância ao mundo. Ela não tinha pais. Era criada pela avó, bastante velha para vigiar os seus passos. Podia ficar na praça até as onze da noite, quando a avó começava a chamá-la para espantar os maus espíritos de sua imaginação decrépita. Belisário parecia não notar a companhia da adolescente. Tampouco a beleza dela, ainda não consolidada, chamava-lhe a atenção.

Outubro os alcançou juntos. Carregando sempre a “Revista Geográfica”, Aloendra sentava-se todas as noites com Belisário.

Tina temia que Rosalina aparecesse no “Dia dos Mortos”. Ela acreditava que as pessoas sumidas quando aparecem no “Dia dos Mortos” surgem apenas para anunciar que já não pertencem ao mundo dos vivos. Era com apreensão que a cozinheira via aproximar-se o segundo dia de novembro. Como saber se Belisário resistiria à cruel revelação? — perguntava-se Tina. (mais…)

O TRONO DO DESENGANADO* 2 junho 8, 2018

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“Amar é temer a si nas horas cruas”

Antônio Brasileiro

        

         PARTE II

 

Em junho, um jovem psiquiatra vindo da capital para recuperar-se em casa de parentes de uma estafa, interessou-se por Belisário. Empolgado com o caso do homem, praticamente da idade dele, exilado numa cadeira de balanço, o especialista passou a observar Belisário com atenção cientifica. Tina já havia desamarrado a cadeira da árvore e o patrão podia balançar-se livremente.

Belisário não se incomodou com a observação do psiquiatra. Não ligou para as fotografias que o médico  tirava. Olhava a objetiva (apontada para o seu rosto, como uma arma prestes a disparar), insensível e imóvel como um morto que teimava em manter uma precária ligação com o mundo.

Após alguns dias de observação, o psiquiatra concluiu que poderia comunicar-se com Belisário, se também colocasse uma cadeira de balanço debaixo da mesma árvore e passasse a se balançar da mesma forma que ele. Arranjou a cadeira e, à noite, sentou-se diante de Belisário, imitando os seus gestos; impulsos necessários para fazer a cadeira balançar. (mais…)

O TRONO DO DESENGANADO* 1 junho 7, 2018

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Amar é temer a si nas horas cruas”

Antônio Brasileiro

PARTE I

Quando Rosalina partiu, Belisário colocou a cadeira debaixo da árvore. Tinha pouco mais de trinta anos. Sua expressão era de boi impassível. Sabia que Rosalina voltaria; sabia que os ventos de maio ou as tempestades de areia de agosto a trariam de volta.

Tina, a cozinheira, não compreendeu o motivo que o fez balançar-se na cadeira, diante da eterna paisagem: ruas iguais batidas pela poeira sufocante. Pensou que ele deixaria a cadeira para almoçar. No final da tarde, cansada de esperá-lo à mesa, levou-lhe o almoço.

Belisário permanecia no mesmo lugar, indiferente, inclusive, às grandes moscas que pousavam em seu nariz e espalhavam-se pelo povoado. Petiscou a comida e deixou-a de lado. Um vira-lata comeu todo o resto deixado no prato.

Belisário voltará para dentro de casa na hora de dormir”, pensou Tina.

No começo da manhã, trouxe-lhe o café. Ele bebeu um pouco, despejando o resto no chão.

Padre Feitosa olhou, intrigado, o homem na cadeira. Passava para a missa das seis e parou para cumprimentar Belisário; perguntou-lhe se havia algum problema, mas não obteve resposta. Repetiu a pergunta e Belisário continuou calado. Por fim, temendo chegar atrasado para a missa, o sacerdote retomou o caminho da igreja, frustrado em ver desperdiçada, logo no começo do dia, sua boa vontade profissional. (mais…)

SETE A UM, O LIVRO DA VIRADA abril 29, 2018

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capa-7x1

Quatro anos depois, em coletânea de contos, sete brasileiros e um alemão revisitam a histórica goleada da Alemanha sobre o Brasil, na Copa do Mundo de 2014.

Quatro anos depois da humilhante derrota da Seleção Brasileira, por 7 a 1, diante da Alemanha, nas semifinais da Copa do Mundo de 2014, em pleno Mineirão, em Belo Horizonte, sete contistas brasileiros e um alemão entraram em campo para revisitar aquele jogo histórico. O resultado é a coletânea Sete a um, que será lançada no próximo sábado (dia 5), das 15 às 19:30, na Biblioteca do Instituto Goethe, no começo do Corredor da Vitória, em Salvador. Replay de um jogo inesquecível? Muito mais do que isso, já que cada autor reconta a partida do seu jeito, e a ficção permite distorcer e até modificar a realidade.
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REZA DE SÃO FRANCISCO abril 19, 2018

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Cansei dos homens
(carrapichos).
Vou viver com os bichos.

INFÂNCIA abril 19, 2018

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Para Dona Bete, em algum lugar das estrelas.

Quando eu fiz dez anos, pensei: 
mãe vai fazer um bolo para mim.
Quando fiz vinte anos, pensei:
os colegas vão fazer um bolo para mim.
Quando fiz trinta anos, pensei:
meus irmãos vão fazer um bolo para mim.
Quando fiz quarenta anos, pensei:
meu amor, fará um bolo para mim.
Quando eu fiz…

Bem antes,
um menino viu uma senhora
cobrir de glacê a pequena humanidade.