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PORQUE NÃO SOU ESTE CRISTÃO março 12, 2020

Posted by eliesercesar in Poesia.
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(Lembrando Bertrand Russel).

Um país cristão em que
parece proibida a compaixão.
Um país cristão em que os crentes fazem arminha com a mão.
Um país cristão em que se nega o pão.
Um país cristão que se prega a segregação.
E quase não se diz sim,
mas, frequetemente, não.
Um país cristão em que se rouba,
o pai, a mãe, o filho e o irmão,
em que, em cada esquina,
espreita uma traição.
Um país cristão em que se acende
uma vela para o santo
e duas para o cão.

Não! Não são cristãos
(pelo menos sãos).
São manipulados, insisto.
É de vocês. Nunca foi meu
este Cristo.

FECHADO PARA BALANÇO março 11, 2020

Posted by eliesercesar in Poesia.
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Se você se sente como um armazém de secos e molhados
– seco por dentro, molhado por fora –
fique aí mesmo,
não se vá, por aí, embora.
Feche-se para balanço,
que, um dia, passa esse ranço.

UM ANJO março 9, 2020

Posted by eliesercesar in Poesia.
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Ando lado a lado,
com você que caminha desolado,
e, compassivo, lhe digo:
escape, escape, vamos, escape!
Nem que seja por um triz.

Quem foi mesmo que disse
que é bom ser infeliz?

AS MUSAS E OS FALSOS POETAS março 9, 2020

Posted by eliesercesar in Sem categoria.
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Vinde, poetas ruins!
Vinde, escritores sofríveis!
Vinde, os que escrevem com os rins!
Vinde, textos desprezíveis!

São todos benvindos ao banquete.
Vinde, em fila indiana,
com sua mensagem cacete
e insípida como banana.

Vinde, oh, desgarrados siameses,
que se esforçam meses a meses,
para escrever uma linha,
inferior a um grão de farinha.

Vinde, pressurosos e afoitos,
como trêfegos adolescentes!
Melhor se entregarem aos coitos
do que a estéticas indigentes.

Vinde, inspiração buscar,
pois de vocês temos dó.
Desde que passaram a criar,
nós, Musas, os deixamos sós.

ORAÇÃO PARA ADIAR A MORTE março 9, 2020

Posted by eliesercesar in Poesia.
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Segue distante de mim, morte precoce!
Caminhei muito, é verdade
(não se pode negar na minha idade),
mas ainda não cheguei ao fim.
Portanto, permaneça longe de mim.
Não lhe quero bem e muitos menos mal.
Então, leve a outro a sua visita fatal.

Logo ali, bem na sua frente,
tem um cidadão indiferente.
É um homem doente e sem sorte.
Para ele, estar aqui, tantos faz.
Portanto, me esqueça
(tenho ainda espírito de rapaz).
Vai buscá-lo. De bom grado,
ele a acolherá como última consorte.

E, depois, saciada a colheita neste terreno,
parta para bem longe,
como um viajante sereno.
Leve sua exígua mortalha
para a França, a Inglaterra,
(vá, peste!), para o Timor Leste,
a Romênia, a Checênia ou Itália.
Mas, fique longe de mim.
Se calhar, vá para os Estados Unidos,
a China, a Rússia, a Turquia,
Oh noiva da noite e fugitiva do dia!

(Poupe a África, lá já ceifaste demais,
emissária de Satanás.)
Dê muitas voltas no mundo,
a pé, de barco, avião e bicicleta,
e só retorne, verme atleta,
quando minha mente estiver,
irremediavelmente, inqueita.

Estarei lhe esperando, andarilha nefasta,
para, novamente dizer: volte,
e não retorne tão cedo. Basta!
Vá para bem distante, irmã da escuridão.
Não há só este caminho. Há outro chão.

Parta tranquila, oh presença intranquila!
Segue, sem mim, o seu caminho,
todo um tenenbroso espinho,
que eu mesmo hei de chamá-la,
oh derradeira e inútil mala!

Tenha paciência, que eu mesmo hei de convocá-la,
mas só no último inadiável e estelar instante,
oh, insaciável bacante!

E, você, mãe dos que se foram,
há de me embalar e recitar um verso,
em louvor à uma criança,
renascida para a eternidade
e já embalada pelo universo.

“FOME”, UMA OBRA-PRIMA VISCERAL, DE KNUT HAMSUN novembro 27, 2019

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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“FOME”, UMA OBRA-PRIMA VISCERAL

Com um toco de lápis na mão, algumas folhas de papel em branco e a barriga na miséria, um escritor pobre vaga pelas ruas da antiga Cristiânia – hoje, Oslo, capital da Noruega – em busca de dinheiro para se alimentar. Mesmo na mais absoluta pobreza, é orgulhoso, lírico e sonhador.

Também voluntarioso, ao ponto de dar todo o dinheiro que conseguiu a duras penas a outra pessoa e ficar, novamente, mais um longo período à mercê da fome, uma fome febril, visceral e implacável, e ainda exposto ao frio e ao relento.

Quando consegue emplacar um artigo num jornal e recebe algumas coroas tem pequenos surtos de euforia, que duram até a fome recrudescer e o imperativo pela sobrevivência o impelir a caminhar num ciclo vicioso pelas ruas da cidade, atrás de recursos para comer, como um providencial empréstimo (sempre recusado) ou colocar uma peça de roupa na loja de penhores da qual já é figura carimbada. Como um vagabundo lírico, assustado e ao mesmo tempo desafiando as autoridades, o escritor lembra um Carlito avant la lettre.

Essa é a trama de um dos maiores romances da literatura universal, “Fome”, do norueguês Knut Hamsun (1859-1952), que acabo de reler, depois de muitos anos, na elogiada tradução de Carlos Drummond de Andrade. Poucas vezes vi uma descrição tão orgânica e visceral da fome como neste romance quase autobiográfico de Knut Hamsun.

 

 

UM NAZISTA NA ALTA LITERATURA

Premiado com o Nobel de 1920, o autor norueguês caiu em desgraça, ao abraçar o nazismo e o fascismo, a exemplo de outros grandes escritores como Louis-Ferdinand Céline, na França, e Ezra Pound, nos Estados Unidos. Knut Hamsun chegou a dar a medalha que ganhara da Academia Sueca a Joseph Goebbels, o Ministro da Propaganda hitlerista, num encontro com Adolf Hitler, em 1943. Por causa do apoio ao nazismo, chegou a ser internando numa clínica psiquiátrica, após a derrota do Führer. Foi julgado e considerado senil, como um modo de mitigar sua pena. Mas não demonstrou remorso por suas posições políticas. Até chegou a escrever um livro (muito bem vendido) defendendo suas preferências ideológicas. Foi libertado e morreu aos 92 anos ainda muito prestigiado.

O apoio de Knut Hamsun ao nazismo, no entanto, não desmerece os seus romances, em mais uma flagrante contradição entre a contingência do homem e a transcendência da obra.

LENDA QUE ANDA DE TREM setembro 23, 2019

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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A história é fantástica: um trem iluminado como um salão de festas vaga pelos pampas do Rio Grande do Sul, oferecendo-se para quem quiser entrar em um dos seus convidativos vagões. Seu chamado é sedutor. Quando abre uma dos vidros de um vagão, o que se vê lá dentro são pessoas sorridentes e felizes. Porém, o passageiro que entra jamais sai do veículo, esfumaça-se como um sombra numa noite de pesadelo. Esse é mote do livro Ibiamoré, o Trem Fantasma, do escritor e médico gaúcho Roberto Bittencourt Martins, um trem que, segundo o autor, toda gente teme, “como se este fosse conduzido pelo próprio Demônio”. (mais…)

O CELTA SONHAVA COM A LIBERDADE setembro 18, 2019

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Os males do colonialismo e a luta de um homem para libertar seu país, a Irlanda, do domínio britânico são os temas do romance O sonho do celta, do peruano Mario Vargas Llosa. Neste livro, o Nobel de Literatura de 2010 retorna ao romance histórico (depois de A guerra do fim do mundo, sobre o massacre de Canudos, na Bahia, e A festa do bode, uma radiografia da ditadura de Rafael Trujillo, na República Dominicana), para contar o drama real de Roger Casement (1864-1916), ex-cônsul britânico enforcado por alta traição pela Inglaterra.

Casement é mandado pelos britânicos ao Congo Belga e depois à Amazônia peruana, para investigar as atrocidades e os crimes cometidos contra os nativos; no país africano pelo império de Leopoldo II; da Bélgica; na região de Putumayo, na selva peruana, por uma multinacional que extrai o látex à custa do massacre das tribos indígenas. Nos dois casos produz um relatório devastador de repercussão internacional. Ainda no Congo, o jovem idealista que pensava que veria na África os esforços humanitários para levar o progresso e a civilização cristã aos nativos, se depara com a exploração desapiedada e a crueldade bestial. O mesmo horror que impressionou Joseph Conrad (de O coração das trevas) com quem Casement se encontrou no Congo Belga.

No Congo e na Amazônia peruana, a visão de mundo de Casement se modifica diante da cruel realidade e o aventureiro e humanista irlandês percebe que a exploração e o mal também ocorrem em sua pátria ocupada pela Inglaterra. Com isso, renega o país de empréstimo, vira um nacionalista radical e passa a combater pela libertação da Irlanda, numa guerra sangrenta e de escramuças que se prolongaria por todo o Século XX.
No romance uma frase me fez pensar na atual política indigenista do Brasil e na cegueira deliberada do governo em relação a Amazonas: “Para eles os índios amazônicos não eram, propriamente falando, seres humanos, mas, e sim uma forma inferior e desprezível de existência, mais próximas dos animais do que dos civilizados”.

Confiram as reviravoltas na vida de um homem tragado pelo turbilhão da história, em O sonho do celta, mais um grande romance de Mario Vargas Llosa.

(mais…)

CHUVA julho 8, 2019

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I

O que chega com a chuva?
A lembrança de Ihona,
a infância, um circo
com furos na lona,
um barquinho de papel
à deriva numa poça rasa,
e um menino com medo trovão,
dentro de casa.

II

O que chega com a chuva?
A memória cíclica de Borges:
“La lluvia es una cosa
Que sin duda sucede en el passado”.
E, na roça, a lerdeza dos bodes.

III

O que chega com a chuva?
Um riachinho sem foz,
e, também a tempestade
que já desaba dentro de nós.

DO LIVRO DAS INDAGAÇÕES julho 8, 2019

Posted by eliesercesar in Poesia.
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Quando chega de fininho,
para que país, para que mundo,
canta um passarinho?