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VIVER OU MORRER EM BRASÍLIA – Em As Margens do Paraíso, Lima Trindade fez um romance de formação numa cidade também em construção abril 4, 2019

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Brasiliense  radicado em Salvador, Lima Trindade fez um tributo à terra natal. Foto: Marcelo Frazão.

 

O bildungsroman é um termo da crítica literária alemã para designar o romance de formação, em geral o relato do itinerário, quase nunca ameno, de um jovem para a idade adulta ou até, nos casos mais sofridos, para a maturidade precoce. O exemplo clássico deste tipo de narrativa é o romance Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, de Goethe. O inglês Charles Dickens foi outro mestre das histórias em que o caráter do personagem vai sendo, aos poucos, plasmado diante do leitor, em obras como Grandes Esperanças, David Cooperfield e Oliver Twist.

No Brasil, o paraibano José Lins do Rêgo escreveu uma trilogia de formação que abarca os romances Menino de Engenho, Doidinho e Banguê nos quais o menino Carlinhos salta de moleque solto na bagaceira, para o adolescente de colégio interno, e o homem já feito. O baiano Jorge Amado também cultivou o bildungsroman nos duros aprendizados de Antônio Balduíno (Jubiabá), e Pedro Bala (Capitães da Areia).

O escritor brasiliense Lima Trindade, radicado em Salvador há duas décadas, acaba de dar uma importante contribuição ao bildungsroman brasileiro, com o polifônico As Margens do Paraíso. Trata-se de um romance de formação – a busca material e existencial de três jovens – que se passa numa cidade também em construção, Brasília. No romance de Lima Trindade, forçados pelas circunstâncias, o ambicioso Zaqueu, o idealista Rubem e a sofrida Leda acabam se cruzando na futura capital do país que está sendo construída no deserto do Planalto Central. Na primeira parte do livro, as histórias são narradas por cada um dos três personagens. Daí o seu caráter polifônico. Na segunda parte do romance, há um narrador onisciente, maestro a reger habilmente a polifonia anterior. E depois, Mauro, outro personagem de destaque, se encarrega de encerrar a polifonia de vozes, com a sonoplastia ruidosa de uma Brasília que está sendo inaugurada:

Os fogos coloremo céu. Os estrondos são seguidos de gritos de surpresa e espanto. Crianças batem palmas, sacolejam bandeiras de papel. Adultos contêm o choro, esfregam os olhos avermelhados e, no outro segundo, já sorriem da mesma forma que o seu irmão desconhecido a acompanhar-lhes o passo firme, a lhes apertar , saudá-los e congratulá-los pelo feito. Em menos de quatro anos levantou-se do chão uma cidade.

TRIBUTO A UMA CIDADE

candango

“Quem construiu a Tebas de sete portas?” Bertolt Brecht.

Zaqueu mora em Anápolis (GO), sonha com a carreira política e, depois da perda trágica de um amigo (o tímido e sensível Sílvio), impõe-se o desafio de superar o pai, um médio empresário envolvido em falcatruas, como licitações fraudulentas e direcionadas. Rubem é um jovem pobre do Rio de Janeiro, em busca de um objetivo na vida. Depois de duas decepções amorosas resolve atender ao aceno de um primo para se mudar para a futura capital, em fase de construção, a toque de caixa, no distante cerrado. Leda é uma menina pobre e sonhadora de Juazeiro, na Bahia, abandonada pelos pais, e empregada doméstica explorada pela fútil mulher do padrinho.

No destino dos três jovens, a Brasília em construção soa como o canto da sereia, a chance de mudar de vida, o futuro luminoso pela frente. As Margens do Paraíso reúne um elenco de personagens fictícios e reais, com referências a Juscelino Kubitschek, o idealizador de Brasília, Israel Pinheiro, o político experiente que dirigiu a construção da cidade como um grande capataz; Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, os arquitetos que projetaram a nova capital do país, e, é claro, os anônimos candangos, os peões que ergueram a cidade. Todos se deixaram contaminar pelo otimismo dos anos JK que prometiam avançar 50 anos em apenas cinco anos de um governo impulsionado pela saga desenvolvimentista e embalado pela emergente Bossa Nova.

As Margens do Paraíso começa em 1958 e termina com a inauguração de Brasília, em 21 de abril de 1960. Misturando política e documento histórico, o romance de Lima Trindade se passa num tempo de fé e esperança num Brasil novo que, infelizmente, quase seis décadas depois, não somente deixou de se concretizar como parece querer, na contramão dos anos JK, regredir 50 anos em cinco. É também um tributo a uma cidade que, depois de inaugurada, deixou muita gente não às margens e sim bem distante do paraíso. Com o agravante de que, em pouco mais de meio século, uma minoria parasitária, ociosa e privilegiada vem se revezando, ao locupletar-se com o dinheiro público e chafurdar no vício e na corrupção.

Sobre os que, empregando expedientes escusos, se deram bem antes, durante e depois da construção da nova capital, divagou um personagem de As Margens do Paraíso, que jogou às favas quaisquer escrúpulos de consciência, como, aliás, já fizera um ministro da ditadura militar, ao defender a edição do AI-5:

Sua grande descoberta nos últimos meses vividos era que não havia justiça no mundo. As recompensas pelo bem e pelo mal causados não se distinguiam em nada uma da outra. Um jovem sonhador era facilmente conduzido ao laço da forca no mesmo patético instante em que um tirano familiar sorvia o seu uísque e desfrutava o prazer de fumar um cigarro. Era assim a justiça divina, assim se organizava o mundo. Então, para que sofrer inutilmente?

Passados 59 anos da inauguração, Brasília continua cheia margens. A maioria não leva a lugar algum. Outras conduzem ao paraíso, inclusive o fiscal.

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LAJEDO março 21, 2019

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De vez em quando, é bom
não pensar em nada.
Aí vem uma leveza.
Melhor no começo da manhã,
logo cedo.
Como quem vê um calango.

Apenas um calango, no lajedo.

 

DO LIVRO DAS INDAGAÇÕES março 21, 2019

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Quem me dera menos tropical?
Quem me dera uma vida estival?
Como os campos lavados pela chuva.
Quem me dera o vinho e a uva?

GAIVOTA março 10, 2019

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Não sou, não quero ser,
nunca fui, jamais serei,
uma pessoa devota.

No entanto, vi na praia
uma gaivota.

IMAGEM VIVA DA HISTÓRIA – No romance Não morra antes de morrer, Yevgeny Yevtushenko relata os bastidores do golpe frustrado de 1991, na agonizante União Soviética. fevereiro 13, 2019

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A literatura russo-soviética sempre caminhou de mãos dadas com a história, desde Pushkin. Assim tem sido com Tolstói (Guerra e Paz), Sholokhov (O Don Silencioso), Pasternak (Doutor Jivago), Soljenitsin (Arquipélago Gullag), Ribakov (Os filhos da Rua Arbat), Grossman (Vida e Destino) e tantos outros. É também o caso deste bom romance com o péssimo título de livro de autoajuda, Não morra antes de morrer, de Yevgeny Yevtushenko, que foi um enfant terrible da poesia soviética como se pode ver em sua célebre Autobiografia precoce, em que ele diz que “a obra de um verdadeiro poeta é a imagem viva, palpitante, dinâmica e expressiva do seu tempo”. (mais…)

CHORO fevereiro 3, 2019

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“Filho, porque choras?
Que pesar carregas na alma?”

(Homero, A Ilíada, Canto I, 362)

Por que choras, meu filho?
Que pesar carregas
que choras tanto,
ao ponto de quase te afogares,
no calmo rio dos teus olhos ?

Por que choras sozinho,
quando, ao redor, o riso se impõe?

Pudesse, chorava contigo.
Mas o rio dos meus olhos secou
e resta apenas um poço fundo,
bem fundo e sem água, meu filho.

MARGENS janeiro 27, 2019

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Como entender os rios,

se as águas não param e passam

antes de qualquer compreensão?

Por isso, fico às margens

que não saem do lugar

e são mais calmas que os rios.

 

FARÓIS janeiro 21, 2019

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I

DA BARRA

Não são dos faraós os melhores faróis.
Os melhores faróis guiam a juventude
pelas águas do momento.

II

DA BARRA

Depois, virão outros faróis.
E a escuridão,
e o esquecimento.

ODISSEIA DOS PEQUENOS – Em A Comédia Humana, William Sorayan cria um microcosmo humanista numa pequena cidade da Califórnia. dezembro 30, 2018

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O título do livro que remete à portentosa obra de Balzac, mas é uma obra-prima da literatura norte-americana: A Comédia Humana, romance de William Saroyan, escritor de descendência armênia, essa gente massacrada na fronteira da história.

A estrutura lembra Winesburg Ohio, o clássico de Sherwood Andersen sobre uma cidadezinha e sua gente, Aliás, a influência é patente. Até porque o livro de Saroyan foi lançado em 1942 e o de Andersen em 1919. A Comédia Humana também se passa numa pequena cidade, desta vez Ithaca, Califórnia, Não é à toa que os dois principais personagens do romance de Saroyan se chamam Ulysses (um menino de quatro anos) e o irmão dele, Homero (um adolescente, de 14). O Odisseu seria o irmão dele, Marcus, que partiu para a guerra, com o desejo de  retornar para casa. (mais…)

YES, NÓS TEMOS CHUMBO – No romance Boquira, Carlos Navarro Filho denuncia a exploração de uma empresa típica de uma republiqueta de bananas dezembro 27, 2018

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Em Boquira, Carlos Navarro Filho faz bom jornalismo com tempero de ficção.

 

O jornalismo literário brasileiro acaba de ganhar uma vigorosa contribuição, mistura do melhor da investigação jornalística (rigor na apuração dos fatos e contundente denúncia social) e do cuidado estético da boa ficção: Boquira, do jornalista baiano Carlos Navarro Filho, por muitos anos chefe da sucursal em Salvador do jornal O Estado de São Paulo, numa época em que os grandes jornais do sul do país, incluindo O Globo, o Jornal do Brasil e, em escala menor, a Folha de S. Paulo, mantinham uma pequena e atuante redação na capital baiana.

Boquira pode ser lido como um livro-reportagem ou um romance de não-ficção na célebre definição de Truman Capote, autor do maior clássico do gênero, o cultuado A sangue frio. O livro conta uma história digna de uma republiqueta de bananas que não produziu frutas para os Estados Unidos e a Europa, à custa do enorme sacrifício das populações (como aconteceu com os países da América Latina explorados pela norte-americana United Fruit Company), mas chumbo, da extração ao beneficiamento do minério. (mais…)